sábado, 22 de dezembro de 2012

A DIVERSIDADE NOSSA DE CADA DIA


O mundo gira em torno de questões abstratas. A verdade nunca é plena. O que é considerado abominável pode passar a se tornar aceitável, ou até mesmo correto, em pouca fração de tempo, bem como, o rotulado de ideal pode perder sua virtude culturalmente. Todas as questões que nos permeiam se resumem a uma opinião comungada por um grupo de pessoas e as opiniões mudam, ora para melhor ora pra pior, porém nunca permanecem estáticas.
Opinião é algo subjetivo, singular, que é meu e ninguém tira, mas por influência externa (ou interna) pode mudar. Cada ser é único e exclusivo, e tem sua forma de enxergar o mundo como ninguém mais tem. Algumas opiniões nos fazem ter mais vinculações com algumas pessoas que selecionamos como semelhantes a nós e repelir outras por serem contrárias, e nos engajarmos em projetos sociais em busca da conquista da aceitação de nossa ideia.
Cada um busca defender com garra seus ideais e somente através disto os grandes progressos da humanidade se fizeram possíveis. Mas o que seria este defender com garra? É simplesmente utilizar-se de inúmeros meios disponíveis, ou criar meios, os quais venham a convencer a massa da comunidade a que pertencemos, de que a ideia que defendemos é melhor para o grupo do que as opositivas.  O que emerge como uma proposta de “bem maior” da nação pode se manifestar contrário a isso, quando feita por via de violências.
O que tem tomado espaço na mídia negativamente nas exposições atuais são os atentados violentos contra homossexuais, os torcedores de alguns times de futebol ferindo torcedores de outros times, mulheres agredidas por homens (por inúmeros motivos), atentados raciais, religiosos tem se tornado “comum” em nosso meio, junto a mais uma infinidade de exemplos do uso de violência em prol de uma opinião ou “causa social”.
Temos que lutar pelo que acreditamos, mas isso não inclui fazer mal às pessoas. Geralmente quem julga a escolha de outra pessoa como inconveniente usa o argumento de que ela é ruim, repugnante, prejudicial à sociedade. E entretanto não estaremos sendo piores ainda diante desta cometendo maldade contra seres humanos? Uma pessoa não tem a obrigação de concordar com as escolhas que as pessoas a seu redor optaram, ela não precisa aceitar, mas tem que ter a integridade de respeitar.
Posso ser contra o aborto, o achar errado, o condenar, é meu direito de ter minha opinião sobre ele, mas nada no mundo me outorga o direito de violentar quem não comungue do mesmo pensamento que eu. O mesmo para a homossexualidade: eu posso achar errado, pecado ou coisa de gênero, é meu direito me posicionar tanto contra quanto a favor, de sustentar minhas convicções, mas o que nunca será direito de uma pessoa é causar danos físicos, psicológicos e morais a outra pessoa.
Raças, times, religiões, partidos políticos, opções pessoais, só existem para serem preferidos por uns e preteridos por outros. Sempre consideramos nossas verdades como absoluta, mas os outros também consideram as verdades delas assim o sendo. Todos querem um melhor para todos, mas esse “melhor pra todos” não será possível se parte do “todo” for violentada.
Percebemos o grau de evolução de uma pessoa pela maneira com que ela posiciona suas opiniões, verdades, saberes, sem causar danos a outros que sustentem opiniões divergentes. Eu tenho a liberdade de ser o que eu considerar certo, mas tenho que ter dignidade de dar ao outro a possibilidade de deixar que ele seja o que ele quiser, sem menosprezá-lo por isso.
Você não precisa achar certo ser lésbica, nem gay, nem heterossexual, nem pai de santo, nem evangélico, nem abortar, nem pedir esmola, nem torcer para o São Paulo, nem mulher usar vestido curto, nem usar piercing ou tatuagens etc. Você pode ser contra todas estas coisas, mas não pode ir contra o direito de outro ser humano, como você, fazer as próprias escolhas dele. Assim como você tem direitos todos os outros a seu redor também o tem. A opinião ou causa correta é aquela que não vitimiza ninguém.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 22-12-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O ENLUTADO QUE SOMOS


O luto é descrito como uma reação de uma pessoa diante de um rompimento, seja ele qual for. Os rompimentos são uma quebra de relação imediata ou gradativa com “coisas” com que estávamos acostumados a conviver. São sentidos por nós como um abandono ou que fomos logrados pelo mundo. Podemos defini-los como perdas.
São várias as perdas vivenciadas no percorrer da vida: perda de emprego, perda de oportunidades, perda de relacionamentos, perda de animais, perda de roupas, perda de sonhos, ou seja, perdas concretas e perdas simbólicas. Mas o que é entronizado como referência entre os lutos, sem dúvida alguma, por ser o mais doloroso e cruel, é o luto diante da morte de alguém com quem temos vínculos afetivos.
Vive-se com a certeza de que um dia, mais cedo ou mais tarde, esta dor adentrará nosso ser, e não apenas uma vez, porém repetidas vezes, tendo em vista que todo ser vivo ao nosso redor está condenado a este triste e fatídico fim, inclusive nós mesmos. Somos enlutados eternos, da morte alheia e da nossa própria morte.
Uma perda sempre vai ter como principal característica o fato de ser uma eventualidade a qual não conseguimos fugir de forma alguma. Tentamos, mas aceitando ou não nada escapa de sua ocorrência. Uma perda é o irremediável da vida, o que foge do nosso alcance, o que nos torna paralisados diante do mundo, o que nos coloca em angústia pela impossibilidade de ações modificadoras do fato indesejado. As perdas de entes queridos por morte representam um fim, um término do ciclo de vida de alguém, enquanto nós vamos terminando de concluir o nosso.
A morte está ai, sempre presente, circundando todas as vivências. Basta nascer para se ter convicção que se está morrendo.  É difícil encontrar quem não tenha perdido alguém querido, e se ainda não perdeu, certamente perderá. Mesmo tendo convicção que isto emergirá a qualquer momento, há em nós um pensamento de infinitude, parece que vai acontecer com os outros, que está distante de nós. Quando nos deparamos com a ocorrência, quando sentimos na pele a dor da perda de alguém amado, a frustração inominável de nossa impotência diante do fato toma conta. Se sentir incapaz de dar vida à pessoa querida, vê-la partir e não poder nada fazer implica em demasiado sofrimento psíquico.
É totalmente normal e esperado ficar transtornado diante do falecimento de quem se ama, pois representa a perda de uma pessoa com a qual se tinha um vínculo e esse vinculo era importante na vida, houve um investimento em relação a ela, ela era significativa. Quando perde essa pessoa não se tem mais em que investir, da forma que era na relação, e não se tem mais o retorno que ela dava, vive-se um “vazio existencial”. Quanto maior é o vínculo com a pessoa, maior é a dor e mais difícil superá-la.
Quando morre alguém há uma fase de adaptação, o luto nada mais é do que uma despedida de algo de deixou de ser, que nunca tornará a ser e que era importante para nós, e também uma adaptação a uma nova forma de viver com a ausência da pessoa que gostávamos. No período de luto iremos nos reposicionar no mundo, aprendermos a viver com a falta que o outro faz.
Primeiro a pessoa desaba, porque não sabe o que fazer com aquele sofrimento. Chorar é fundamental, é necessário este momento de despedida, este sentimento precisa ser exteriorizado para ser elaborado. As lágrimas e a fala excessiva são características comuns do enlutado, é uma forma de tentar amenizar a dor. Aos poucos a pessoa vai se reconstituindo, se reerguendo, aprendendo a viver com a falta do outro. Não que a pessoa deixe de sofrer, mas fica um pouco mais familiarizada com a ausência.
Se este sentimento é suprimido, calado, sufocado, a pessoa não consegue ficar bem e tem uma maior possibilidade de surtar futuramente. O sofrimento guardado vai ser mal resolvido, isto é chamado de luto complicado. Pra se elaborar um luto a pessoa necessita transitar pelas fases de desespero e, posteriormente, se reerguer.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 15-12-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O TETO DE VIDRO DE QUEM ATIRA PEDRAS


Averiguar as mazelas alheias sempre foi, e sempre será, demasiadamente mais fácil do que enxergar, assumir e verbalizar acerca das próprias desgraças. Talvez a atitude de ficar fofocando a respeito da vida dos outros tire um pouco da atenção da própria e, com isso, dê a falsa sensação de que esta não possui ruínas a serem comentadas. Apenas a vida do parente, do vizinho, do amigo é vista como problemática. Pode-se dizer um mecanismo de defesa, em busca de negar a própria vulnerabilidade humana e enfatizar a do semelhante.
O cômico da questão é que normalmente quem tem o deselegante hábito de julgar, falar mal, mexericar acerca das particularidades de seus conhecidos possui conteúdos bem mais vexatórios em sua vida privada. Algumas vezes sabe e não assume, outras finge que não vê, como se isso extinguisse a questão, e há ainda quem vive dentro de casa exatamente o que aponta na vida alheia sem se dar conta disso.
Um empresário que alarma para a cidade toda de seus clientes devedores, mas que coincidentemente também possui dívidas em vários locais; Uma mulher que diz pra todo mundo que o sobrinho usa drogas, mas que na verdade não sabe, ou finge não saber, que o próprio filho é usuário; Um homem que afirma que a amiga da filha não presta porque é “namoradeira”, mas que tem a filha morando com o namorado há anos sem que ele saiba; Um senhor critica o filho do amigo por ser homossexual, sem saber que sua filha também o é; Outro julga a filha do vizinho que engravida aos dezessete anos, mas um tempo depois a sua engravida aos quinze; Estes são uns dos exemplos que mostram que não é muito pertinente “cuspir para cima”, porque como o dito popular diz “pode cair na cara”.
Quem se precipita ao falar certamente sofrerá a pena, quem simula ter uma vida perfeita ao citar a dos outros ignora o fato de que o futuro é incerto. Hoje seu companheiro pode estar em uma fase não muito agradável, mas mais cedo ou mais tarde em algum âmbito da vida chegará um momento que você também passará por alguma.
Tudo muda, nada é estático, vivemos, querendo ou não, em constante e intensa transformação. O rico pode falir a qualquer momento, bem como, o miserável pode mudar de vida, o doente pode ser curado e aquele que era o são pode enlouquecer da noite para o dia, a novidade envelhece, as ideias mudam, as verdades se reestruturam, a puta pode virar santa e aquela menininha confiável, super ingênua, pode enganar todo mundo. Nem tudo é o que parece, e o que parece, mesmo que seja, pode mudar.
Tem um ditado, cuja autoria desconheço, que diz que “o gordinho emagreceu, o nerd ficou rico, o que chorava calou a boca de todo mundo, e você que tanto julgou, se tornou o que mesmo?” Só pela entonação da frase remete-se a certeza de que este que julgou se tonou um nada, um fracassado, porque se fosse algo significante sem dúvidas seria lembrado. Fica a reflexão no ar: o que você ganha atirando pedras no telhado alheio sendo que o seu pode ser quebrado a qualquer momento? Não seria mais sábio você trabalhar em prol de estruturar o seu em vez de molestar o do outro?
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "O Paraná" dia 17-08-2011
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 
        

domingo, 9 de dezembro de 2012

MULHERES FRAGILIZADAS: O ESTIGMA DA VIOLÊNCIA


A violência é concebida como um fenômeno que ocorre e se dissemina constantemente, implicando em relações de poder e dominação. Está sempre atrelada à questão de desigualdade, onde um lado frágil sofre abuso de outro mais apoderado. Independente sob a esfera a qual se manifesta repercute em prejuízo ocupacional em vários âmbitos da vida da pessoa.
A violência direcionada à mulher na contemporaneidade se consagrou como uma das principais causadoras de sofrimento físico e psicológico feminino, fato que compõe uma grave problemática de saúde pública, sendo que uma em cada quatro brasileiras já sofreu algum tipo de agressão por parte do parceiro.
O perfil mais comum das mulheres vitimizadas é assinalado por três características base: mulheres jovens, dependente financeiramente do companheiro e com filhos, o que não exclui a ocorrência com mulheres que não se enquadram nestas. Deve-se salientar que vêm ocorrendo por todo o mundo e entre vários tipos de pessoas, das mais variadas idades, classes sociais, religiões, etnia, grau de instrução e que é dentro de casa o local em que estas mulheres sofrem, é menos frequente ocorrer aos olhos de um público.
Existem, basicamente, cinco tipos de violência: A violência física, que é a mais perceptível por representar uma agressão corporal; Violência moral, muito mascarada por ser falsamente nomeada de “discussão” (digo falsamente porque discutir não é sinônimo de molestar por palavras), assinalada por ofensas, injúrias, insultos, uso de nomes pejorativos (vagabunda, puta, vadia...), detrimento moral, é o popularmente conhecido como xingamento; Violência psicológica, caracterizada por qualquer atitude do companheiro ou ex que represente sofrimento emocional para a mulher como ameaçar (geralmente de tirar os filhos), perseguir, vigiar, tentar controlar a vida da pessoa, chantagear, humilhar, ridicularizar, ou seja, tudo que limita o direito de ir e vir da mulher ou diminua sua autoestima; Violência sexual, que se refere a induzir por ameaça, coação, intimidação ou obrigar a mulher a participar de um ato sexual não desejado, isto ocorre muitas vezes com o marido sentenciando a mulher de que esta é um objeto e tem a obrigação de lhe fazer todos os desejos sexuais, mesmo que não queira e também engloba o ato de manipular ou forçar a relação sexual sem preservativo, não deixar a mulher tomar anticoncepcional ou fazê-la cometer aborto, ou seja, tudo o que anule os direitos sexuais da mulher; Por fim, a violência patrimonial, que significa danificar ou destruir objetos pessoais e bens materiais, como quebrar os móveis, o carro, atear fogo ou rasgar documentos ou instrumentos de trabalho, reter qualquer coisa que pertença a mulher como dinheiro, joias etc. Simplificando, tudo que represente algum tipo de prejuízo físico, psíquico ou emocional contra a mulher é caracterizado como violência.
Muito raro é um tipo de violência se manifestar sozinha, ela sempre vem acompanhada por outra, ou outras. Ás vezes, começa com uma “simples” agressão verbal e vai evoluindo, há vários casos relatados na mídia de violência contra mulher que chegou a ponto de um homicídio.
Frequentemente o homem que agride a mulher ainda tenta convencer a vítima de que ela é culpada pela violência que está sofrendo, que ele tem razão em agredi-la, que ela incitou isso, mas não é verdade! É apenas uma técnica de perpetuar a violência e se esquivar da responsabilidade pelas agressões.
Outra incidência comum é depois de agredir, o homem dar uma de arrependido com promessas e juras de que nunca mais na face da terra irá repetir este comportamento, que estava estressado, que não vai mais acontecer, que o perdoe pelo amor de Deus, mas quem faz uma vez tem uma enorme possibilidade de tornar a fazer.
Ninguém pode tomar uma decisão pela vítima, cabe a ela decidir romper com esse vínculo de violência ou continuar. Quer denunciar? Faça um Boletim de Ocorrência, denuncie-o e peça proteção da polícia, não tema as ameaças que ele esteja lhe fazendo. Só reclamar e não tomar nenhuma atitude não vai resolver, só irá aumentar a violência porque ele percebe que você está vulnerável ás ameaças e atos dele.
Dica: Se o homem lhe agrediu com tapas, puxão de cabelo ou outra forma que não tenha deixado marca no corpo, ao fazer o BO não peça para fazer de violência física, porque não haverá marcas para o corpo de delito, solicite contra a violência moral, pois será mais fácil penalizar o agressor.

Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 08-12-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

sábado, 8 de dezembro de 2012

O QUE A VIDA FEZ DA NOSSA VIDA


Ao refletirmos sobre a vida é impossível não nos lembrarmos das ilusões que sustentávamos na infância, de que a vida seria bem melhor quando crescêssemos. Não que esta crença esteja estritamente errada, mas obviamente a vida adulta não é exatamente como planejamos na infância. Sonhos, desejos, anseios, ora realizados, ora obrigados a serem esquecidos, mas são estas vicissitudes que constroem quem realmente somos.
Estamos em constante mudança e a nostalgia do passado se faz presente, ainda que ele não contenha lá as melhores lembranças. Sempre há o que sentir. Mesmo tendo indesejados, teve suas alegrias. O passado se faz presente muitas vezes e são estes flashes do que se foi que nos tornam reflexivos. O tempo e a experiência nos instigam a pensar sobre nossos avessos.
Um dia a gente acorda e tem a plena consciência do significado da frase “a vida não é um conto de fadas”. Apesar de termos certeza que não o é, não temos muita clareza do que implica isso e a ideia de um final feliz persegue até os mais incrédulos. Logo, passamos acreditar que há, quem sabe, alguma semelhança com os contos. Tomamos o conhecimento que eternas historinhas vão começando e findando em nossa vida, e que há vezes em que somos vilões e outras, mocinhos.
Nossos atos nem sempre são compreensíveis por nós mesmos, apesar de ter um nexo causal isso pode se manter inconsciente. Fazemos o que não queríamos fazer, dizemos o que não queríamos dizer e, muitas vezes, nos arrependemos, mas nada pode mudar o que se foi. “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”, disse Fernando pessoa. O que foi jamais nos dará uma oportunidade de tornar a ser. 
Sonhos, sonhos, sonhos! Muitos se tornaram pesadelo, muitos se foram ser ter a oportunidade de se realizar e muitas das realizações não foram sonhadas. O que mensura então nossa realização pessoal? Subjetividade, talvez seja a melhor resposta. Somos o que somos, estamos onde estamos devido a um aglomerado de ocorrências só nossas. As pessoas a nossa volta, o meio circundante, o contexto histórico, as ocorrências inusitadas, nossa constituição biológica e mais nossa reação a isso tudo nos constitui enquanto pessoa. Erros e acertos, ganhos e perdas, alegrias e tristezas, compõe a melodia da nossa vida, cada uma com sua singularidade.
Damo-nos conta, mais cedo ou mais tarde, que somos totalmente atuantes em nossa vida. Tudo parte de escolhas e nem sempre elas são condizentes com o que desejamos, mas se optamos por ela haverá um resultado. E é exatamente este resultado que simboliza nossa vida. O que a vida fez da nossa vida não é nada mais e nada a menos do que nós próprios escolhemos para ela, independente de atualmente acharmos agradável ou não. Nada nos pertence sem nossa contribuição para tanto.
O que fazer então quando os anos passam e a decepção diante do que nos deparamos nos remete a pensar que foi uma má sorte ou coisa de gênero? Responsabilidade é a palavra mais cabível. Atribuir aos outros ou a fatores variados a responsabilidade pelos resultados que angariamos nos afasta ainda mais de fins desejados.
Quando algo fracassa, a possibilidade de um recomeço permanece. Estamos eternamente recomeçando porque os desejos mudam de objeto. Quando um plano finda abre margem para construção de um novo, e consequentemente melhor, por já termos experiência de projetos frustrados e bem sucedidos. A frase “Há males que vem para o bem” aparenta um tanto perversa, mas se for prestar atenção aos fatos ocorridos no decorrer da história, percebe-se que muitos dos feitos mais extraordinários da humanidade foram da autoria de pessoas que perpassaram por fracassos.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 01-12-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

SÍNDROME DE OTELO: QUANDO O CIÚME É DOENTIO


Sentimento avassalador que nos alcança em momentos mais inusitados e inesperados. Desde uma leve brisa de necessidade de proteger nossa “propriedade”, até fúrias impetuosas em relação à mesma. Ínfima, razoável ou exacerbadamente, com ou sem motivos concretos, não há quem não tenha experienciado de alguma maneira o desconforto do ciúme.  
      É uma emoção natural e inevitável, quando se trata de alguém que se ama, no entanto, pode apresentar-se de maneira patológica dependendo da forma que se manifesta. Ou seja, sentir o ciúme é normal, o que, muitas vezes, se torna patológico são as atitudes tomadas em relação ao ciúme sentido.
   A nomenclatura Síndrome de Otelo é baseada na peça “Otelo” que Shakespeare escreveu em 1603. A trama base da história se da com Otelo (Capitão mercenário), recentemente casado com Desdêmona, que é convencido por seu subordinado Iago (soldado que aspira promoção), por motivos torpes e vingança, de que sua esposa lhe é infiel. Impulsionado pela fúria da suposta traição, Otelo assassina sua esposa e logo recebe a notícia de que tudo não passava de uma conspiração, que Desdêmona, na verdade, sempre lhe fora fiel. Mas já era tarde demais, sua esposa jazia ao chão. A Síndrome de Otelo então refere-se ao ciúme infundado e hostil, ou melhor, doentio.
     Hoje em dia, não são tantas as incidências de ciúmes que tenham chegado a este ponto. Mas existem! Algumas relatadas na mídia, outras não. A questão é que, independente de atos incitados por ciúmes provocarem morte física ou não, eles (os atos) sempre representarão algum tipo de morte na relação: morte do respeito, dos sonhos, dos projetos, da confiança, da consideração, da imagem bela que se tem sobre a pessoa amada e até mesmo a morte do amor. Alguém que tenha um companheiro que explode constantemente por ciúmes, dificilmente vai conseguir admirá-lo por muito tempo, e só se ama quem se admira.
     O “sentir” ciúme é saudável, é sinal de que se importa com a pessoa, mas quando ele começa a representar algum tipo de violência entre o casal, ou seja, começa a manifestar-se por atos, é sinal de que as coisas não estão bem. Lembrando que violência não é apenas física, que seria espancar o companheiro, mas também a psicológica, que é a que mais ocorre, no entanto mascaradamente. Xingar, gritar, insultar, insinuar que o companheiro é infiel (sem motivos concretos), vigiar excessivamente, controlar a vida do parceiro, destratar, ameaçar, manipular, impedir que este tenha vida social, fazer pressão, impor proibições, e até mesmo se fazer de vitima (o ciumento acredita que é vítima) são exemplos de violência psicológica.
      Uma pessoa que seja submetida a este tipo de tratamento violento começa a ter uma inversão de sentimento em relação ao companheiro. Se antes (dos surtos de ciúmes) gostava de estar junto, sentia-se seguro, confortável, feliz com o relacionamento, passa gradativamente a sentir-se insatisfeito. O sentimento tão belo que ostentava vai aos poucos se dissipando e dando espaço a sentimentos negativos e emergem então pensamentos de que talvez, sem essa pessoa ciumenta do lado, a vida seria melhor. É neste ponto que a ideia de divórcio começa a ecoar na mente, como a única alternativa de se livrar daquela angústia toda que vem sofrendo.
     Ao mesmo tempo, a própria pessoa que é a ciumenta sofre demasiadamente também. Primeiro, ela acredita fielmente estar sendo traída, mesmo sem ter provas reais (enfatizo que estou me referindo a pessoas ciumentas sem terem sido traídas no relacionamento atual) e, qualquer eventualidade, por mais banal, já remete a ideia de uma suposta traição. Às vezes, por ter vivenciado traições em outros relacionamentos, ou então, pela simples fantasia de estar perdendo o companheiro já fica irado e toma atitudes impensadas e coléricas.
    Grande parte dos divórcios foi motivada por ciúmes infundados causadores de contendas. Se um relacionamento chegou a este ponto já está mais do que na hora de sentar, conversar sobre o assunto, propor meios que viabilizem uma resolução do conflito e, se necessário, solicitar a ajuda de um profissional para tanto. Ninguém aguenta muito tempo viver com este sofrimento sem ter a saúde afetada.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 24-11-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

FALA ERRADA: DISTÚRBIO OU APRENDIZADO?


A fala, assim como tudo na vida, é uma aprendizagem, já que ninguém nasce sabendo falar. Somos apresentados à linguagem nos primeiros momentos de vida e, com o tempo, a desenvolvemos. Os pais, ou quem desempenhe esta função, é que darão subsídios para que a forma mais comum de comunicação se desenvolva.
Tudo é um processo. A princípio, a criança começa a analisar como os adultos falam, logo, tenta imitá-los produzindo balbucio, em seguida, vai aprimorando estes sons até que ele seja emitido de maneira correta, e então se chega à conquista de construir significado pelos sons labiais. Como todo processo, só é concluído ao fim das etapas, se estagnar em uma delas não aprendeu a falar realmente.
Não é raro encontrar pais vangloriando a fala incorreta de seus filhos, imitando e sorrindo. Talvez por acharem engraçados os sons produzidos, acabam por incentivar a fala errada. Para alguns pais, a criança não precisa nem pronunciar parte da palavra, apenas fazendo um som eles já entendem e atendem ao pedido, sem o menor estímulo para que a criança se esforce em falar. Porém, depois que ela apresenta um atraso em relação às outras crianças, afirmam não saber o por quê. Mais eis o motivo: enquanto não for incentivada, a criança não vai aprender.
É claro que as primeiras palavras ditas não serão de total acordo com a linguagem correta, isto se dá gradativamente, como ocorre quando nós, adultos, estamos aprendendo uma nova língua (inglês, italiano, alemão...). No início, a palavra que falamos pouco tem a ver com a verdadeira pronúncia, mas com o tempo, empenho e ajuda de um professor, vamos aprendendo como realmente se diz as palavras. Caso não tivesse alguém que nos instruísse a falar correto, falaríamos errado pensando ser correto. E é exatamente isso que ocorre com as crianças.
As cores “amalelo”, “veide” e “malom”, não existem. Então pra quê estimular as crianças a falá-las?! Agindo desta maneira os pais estão prejudicando seus filhos, impedindo eles de se desenvolverem de maneira adequada.
A criança necessita de pais responsáveis no sentido de ensiná-las a se expressar corretamente, porém isto deve se dar de maneira cautelosa, branda, terna, porque o aprendizado está estritamente relacionado à afetividade.
Com cerca de um ano de idade, um ano e meio, a criança já consegue se comunicar verbalmente. É claro que de maneira bem simples. No entanto, é possível um diálogo com ela. Estima-se que até dois anos de idade se saiba cerca de 200 palavras. A idade considerada “ideal” para uma criança conseguir uma boa fluência verbal é entre três e quatro anos. Ou seja, com quatro anos de idade a criança deve se comunicar verbalmente com facilidade.
Se a criança já passou dos quatro anos e não fala fluentemente, deve-se dar atenção ao caso. Sintomas como: não perceber seus erros de fala, apresentar gagueira persistente, falar frases confusas com palavras invertidas e no lugar da letra “r” fala o “l” (em vez de passarinho, fala “passalinho”, carro é substituído por “calo” e, agora por “agola”) são indícios de que há alguma coisa errada. Aí, deve-se procurar um profissional para averiguar as causas, pois há indícios de que a dificuldade de linguagem esteja associada a algum déficit cognitivo ou transtorno de linguagem.
No entanto, existe também a possibilidade de a criança passar dos quatro anos sem falar corretamente, não por distúrbios de aprendizagem, mas simplesmente pelo fato de ser ensinada pelos pais a assim se portar. Uma vez que fala errado e percebe que recebe estímulos para que assim continue, as palavras disformes vão ser instaladas no vocabulário e prejudicará o desenvolvimento. Como diriam os comportamentalistas, os comportamentos reforçados tendem a se manter.
Ser bons pais consiste em dar subsídios para que a criança se desenvolva de maneira adequada e saudável. Devemos, sim, falar com carinho com crianças, mas isso não significa tratá-las como se tivessem deficiências mentais. Os erros devem ser sinalizados e corrigidos, para que o certo seja aprendido e, é claro, sempre de uma maneira afetuosa.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 17-11-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

PSICOLOGIA CRISTÃ? O QUE TEM A CIÊNCIA COM A FÉ?


Recentemente, em busca online por conhecimento da área de Psicologia, deparei-me com um artigo intitulado “Psicologia Cristã”. Quando bati o olho, a primeira coisa que me remeteu a mente, foi que era da autoria de um padre que estudou Psicologia. Mas para o meu espanto, não. Não era de nenhum líder religioso, porém de uma pessoa que, afirmando ser Psicóloga, utiliza-se de uma suposta abordagem denominada Psicologia cristã.
Estarrecida, fui pesquisar sobre o que vinha a ser essa nova “abordagem” de Psicologia e me deparei com a informação de que não é nenhuma vertente da área, como o nome havia sugerido. É simplesmente uma autoajuda pautada nos estudos bíblicos, ou seja, não tem nada a ver com ciência, a não ser o fato de a autora ter conseguido um diploma em Psicologia. Será que daqui um tempo vão criar também a engenharia cristã, a odontologia cristã, química cristã e demais áreas?
Não poderia deixar de ficar indignada e expressar minha razão diante da postura de tal profissional, totalmente sem ética e respeito para com sua profissão. Logo descobri que ela já foi advertida pelo Conselho Federal de Psicologia e, se continuar ludibriando as pessoas, perderá seu direito de exercer a profissão (nada mais sensato do que isso).
Esse negócio de "Psicologia Cristã" simplesmente não existe, nunca existiu e nunca existirá! Bem como não existe Psicologia Espírita, nem Psicologia Umbandista, nem Psicologia Hare krishna, nem Psicologia Budista, nem Psicologia Satânica e nenhum outro tipo de Psicologia religiosa. Ciência é ciência, fé é fé!
Devo deixar evidenciando que eu, particularmente, sou cristã, mas discordo absolutamente deste omelete de ciência com religião. Posso ser Psicóloga e manifestar a fé cristã, mas nunca ser "Psicóloga cristã".Não há nenhuma ligação científica entre minha profissão com minha religiosidade. É um ato de má-fé unir as duas para se promover.
O mais indignante é que esta dita “Psicóloga” ainda cobra como uma sessão de psicoterapia por seus “trabalhos”, e algumas pessoas pouco instruídas pagam (sabe lá com que esforço) os honorários. O padre cobra por tempo te escutando e aconselhando? E o pastor? E a freira? E os obreiros? E os monges? Nenhum trabalho religioso é cobrado! Este negócio de Psicologia cristã é uma técnica (e muito esperta por sinal) para arrancar dinheiro de pessoas, que estão necessitando de verdadeira ajuda Psicoterapêutica, aproveitando-se de sua fé.
Cada profissional tem sim todo o direito de ter a crença que quiser. Somos, acima de Psicólogos, seres humanos com nossas preferências, nossos credos, apenas devemos ter cautela para não misturá-las em nossa atuação profissional, pois é de imensa falta de ética para com nossos pacientes.
Se a pessoa precisa de uma palavra do bem, um conselho, uma orientação, uma palavra de conforto deve procurar seu líder espiritual. Entretanto, se necessita um cuidado de saúde, tem uma problemática física, psíquica, mental, emocional que precisa ser curada ou tratada ai é com os profissionais de saúde. Cristianismo é com o padre ou pastor. Psicologia é com Psicólogo. Ambos respeitáveis, porém absolutamente diferentes!
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 10-11-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

A ARTE DE RELACIONAR-SE


O relacionamento interpessoal faz referência a todo e qualquer processo que envolva interação humana. Dá-se por via de influência recíproca entre um sujeito e outro, independente de sua forma de manifestação ser comportamental, verbal ou não verbal, pois até mesmo as projeções de pensamentos ou simples reações físicas deixarão implícito algum conteúdo.
O ato de relacionar-se implica em muita complexidade por ser contínuo, sempre estamos influindo pessoas e sendo influídos por elas. A conexão entre seres é uma via de vai e volta, assim como damos, recebemos concomitante.
Dentro de casa, nas religiões, nos estudos, no trabalho, na política, no lazer e até mesmo nos demais interesses, mesmo que pessoais, temos a interação, somos condenados a viver agrupados. Seja em grupos propriamente dito ou equipes, é uma necessidade, precisamos do outro para nos construir e colocarmos em prática os projetos que elaboramos.
      Não é raro o fato de o ambiente de trabalho ser por nós mais tempo frequentado do que nosso círculo familiar. Passamos demasiado tempo do nosso dia no circuito profissional onde maior parte dos relacionamentos interpessoais eclode e, juntamente, os conflitos.
Toda e qualquer interação entre pessoas não escapa da eventualidade de conflitos, sejam eles simples ou de maior complexidade, não há como evitá-los, já que cada pessoa é única e tem seu jeito singular de pensar e agir.  Os conflitos têm também seus pontos positivos, que é incentivar a mudança, inovar, incitar a reflexão, no entanto, sua marca principal é a da contenda. Digamos que conflito é um mal necessário para que qualquer coisa progrida, mas devem ser trabalhados para que não promovam resultados desagradáveis ou até mesmo o rompimento do vínculo, uma vez que a convivência é necessária.
            Para que relacionamentos interpessoais perdurem e sejam satisfatórios necessita que haja uma maneira adequada em sua condução nas mais variadas circunstâncias as quais venham a perpassar. Requer habilidades, são estas chamadas de competências interpessoais. Não é um dom ou uma característica inata, é sim um aprendizado na maneira de se projetar diante do outro.
          Tolerância, paciência, respeito, ceder eventualmente, dividir, valorizar o esforço alheio, se colocar no lugar do outro, não invadir o espaço dos colegas, não se apropriar de criações deles, tratar com cordialidade, compartilhar as próprias ideias, dar margem para que os outros também compartilhem as suas e principalmente saber se comunicar adequadamente é inestimável para um bom relacionamento interpessoal. E isso, ninguém nasce sabendo fazer.
Mesmo que você tenha dificuldade em manter um relacionamento assertivo com seus colegas no presente momento, saiba que isso não é estático. Estamos em constante mudança e o comportamento é aprendido. Você pode modificar sua maneira de agir para uma mais adequada. Isto será satisfatório tanto para você quanto para as equipes a que pertence.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 03-11-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)


O GENUÍNO SIGNIFICADO DE “CARPE DIEM”


No Poema “Odes” da autoria do poeta Romano Horácio, em sua ultima frase, está escrito “carpe diem quam minimum credula postero”, em latim, que traduzida ao português exprime a ideia: “Colhe o dia, confiando pouco no amanhã”. Esta famosa expressão, tão curtinha com um significado tão grandioso, abre margem pra considerável interpretação.
O poema mencionado parte de um aconselhamento que Horácio faz a Leuconoe, a persuadindo a tomar proveito de todas as alegrias que se fizerem possíveis no momento presente e não perder sua porção diária sofrendo por um futuro distante e, consequentemente, incerto, tendo como pressuposto que a única convicção da vida é a morte.
Por vezes, a frase pode deixar imprimida a mensagem equivocada de que o futuro não deve ser considerado. Se não prestar atenção a o que cada palavra significa de fato, algumas pessoas pouco instruídas podem fazer a errônea interpretação de que é um incentivo a agir inconsequentemente no hoje ignorando que o futuro existirá. Porém, agindo desta maneira haverá uma certeza: a de que o futuro será desagradável. Logo, esta dedução é inadequada.
Conforme o sentido literário da palavra, a frase translada a ideia de colher, que é sinônimo de apanhar, provar, usufruir e refere-se a o que tem para ser aproveitado naquele exato período em que se está vivento. Faz lembrar outra frase popular, a que afirma que “cada um colhe o que planta”. Aquilo que se faz existente na vida, independente de ser bom ou ruim, teve a contribuição humana (o semear) para que assim o fosse. A partir da reflexão, fica evidenciado que se tem algo a ser colhido é porque outrora foi plantado, e nada mais justo do que servir-se antes que o fruto apodreça e venha a se decompor, simbolicamente reverberando.
O conselho tem como base o desfrutar o presente sem se prender, se preocupar, sofrer pelo futuro, pois nunca saberemos como ele há de ser. Assim, devemos aproveitar o que de melhor o dia nos propicia, mas tendo ciência de que, querendo ou não, iremos arcar com o dia de amanha.
James Dean tem uma frase que, a meu ver, soa como um complemento a carpe diem, é ela:Sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã”. Cabe somente a cada um fazer-se deleitar sobre a ventura, sorte, fortuna que arduamente (ou não) adquiriu em sua vida. Não adie, não deixe para depois sonhos, nem a realização de projetos que você almeja. O agora, é tudo que possuímos.
Lembre-se que “Carpe Diem” deixa como postulado que, o que nos pertence é somente o presente. O futuro, por ser abstrato, não disponibiliza nenhuma certeza, segurança, esteio, cabendo a nós mesmo a responsabilidade de construí-lo. Isto posto, o hoje é o momento adequado para a vida ser aproveitada, cuidada, tratada, para que o momento que venha se fazer presente no futuro também seja satisfatório.

Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 27-10-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 



O MUNDO MISTERIOSO DAS GAROTAS DE PROGRAMA


Elas têm, geralmente, entre 18 e 35 anos (as menores em idade ocultam esse fato), são bonitas ou pelo menos bem arrumadas, de corpo escultural, se vestem sensualmente e freqüentam desde simples barzinhos até resorts de alto padrão. Das mais variadas classes sociais, solteiras, casadas, divorciadas, viúvas, estudantes, com filhos ou não, morando sozinha, com amigas ou com a família, cada uma tem um motivo exclusivo por ter optado por esta profissão.
Trabalham na rua, em boates, em flats, para cafetões ou “empresários”, em casas de massagem, agência de acompanhantes e também anunciam seu trabalho através de sites. Escondendo o que fazem ou assumindo, algumas sustentam outro emprego no período diurno, outras preferem dedicar-se exclusivamente à prostituição, já que esta garante um renda mensal superior à maioria dos empregos que conseguiriam sem ter uma formação universitária.
Os valores de seus serviços no Brasil variam, comumente entre a quantia singela de dez reais (por mais que pareça inacreditável) e mil reais, dependendo da menina, da região do país onde se está situada, e há também as famosas que cobram por sua companhia milhares de reais, como uma (acredito que existam muitas outras) “famosa”, ou melhor, pessoa frequente na mídia, que disponibiliza sua companhia para homens por nada mais, nada menos que trinta mil reais. O engraçado é que as de um nível socioeconômico mais baixo são chamadas de garotas de programa enquanto as de um nível mais elevado recebem o nome de acompanhante.
O ato de prostituir-se não se refere exclusivamente a venda de sexo, também engloba atos mais singelos como troca de favores sexuais por interesses profissionais, por informações, por benefícios, ou seja, qualquer ato cambial. No entanto, perante a moral social, normalmente apenas obtém o rótulo de prostituta quem faz diretamente a troca de sexo por dinheiro, as que fazem a troca por algo não monetário isentam-se de serem denominadas como tal.
Existindo desde os tempos mais primórdios, a figura da prostituta foi desde admirada, respeitada, com poder político até denegrida, rechaçada, punida, dependendo da época, da cultura, da religião e do local. No ocidente, pela grande difusão do cristianismo, a prostituição sempre esteve atrelada ao pecado e devido a isto é repudiada.
Permeando este fenômeno enigmático, percebe-se que concomitante a ser repelido socialmente, o número de pessoas que decidem cobrar por sexo tem crescido significativamente no mundo contemporâneo, tanto homem quanto mulher e transexuais. Ai fica um paradoxo, se é um ato tão condenado pela moral que rege a sociedade como tem se difundido tanto assim em meio a todas as classes?
Raquel Pacheco, vulgo Bruna Surfistinha, a ex garota de programa mais famosa do Brasil, em uma entrevista explicitou o fato de que se existem tantas garotas de programa disponíveis no mercado é porque existem, proporcionalmente, homens que as procuram, caso contrario a profissão mais antiga do mundo seria extinta.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 20-10-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DEIXAR DE SER MENINA PARA SER MULHER


Aos 15 anos me contentava com bijuterias. Hoje não. Hoje eu só quero jóias. A maturidade nos torna perita em distinguir entre o que presta e o que não presta. Porcarias, sejam elas materializadas em coisas ou pessoas, definitivamente, não interessam. Cheguei a esta conclusão há alguns dias e muito pensei em quantas mulheres comungam deste pensamento.
Não há uma idade certa, algumas aos 20, outras aos 30, ou 40, 50 anos, mas há uma época da vida que passamos a selecionar melhor o que queremos que faça parte dela e o que devemos rejeitar. Talvez mais extremista, exigente, seletiva, a mulher madura não se sente na obrigação de agradar ao outro ou aceitar coisas que não são desejáveis, ela se dá o luxo de escolher o que quer e o que não quer com veemência.
Chega uma época na vida da mulher que o “morrer de amor” deixa de fazer sentido, que percebemos que tendo ou não certas pessoas ao nosso lado, nossa vida vai continuar, boa ou ruim, e que nada na vida é incurável. Chico Xavier disse “Isto também passa”, se referindo a tudo que venhamos experimentar, sejam coisas boas ou ruins. Mais tarde ou menos tarde aprendemos a manter a calma diante das peripécias da vida porque tomamos entendimento de que nada é pra sempre. Este é o marco que assinala a maturidade.
O que difere uma menina de uma mulher é a maneira de lidar com a vida, com as pessoas, consigo mesma, com os sentimentos e principalmente com as incertezas da vida causadoras do medo. O medo, o vilão que nos rouba de nós mesmos.
O medo faz uma pessoa ser quem ela não é verdadeiramente, aprisiona em um corpo que não condiz com a mente que o possui, nos distrai, tira o foco de atenção da realidade e direciona à fantasias ridículas. Não me refiro ao sentir medo, pois este é um sentimento natural, mas às atitudes covardes. A mulher madura não fica mais impotente diante do sentimento de temor, ela o enfrenta, o combate, o supera com invejável serenidade. "A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura", disse Lya Luft.
A menina e a mulher choram, mas há diferença. A menina chora e se desespera. A mulher chora e pensa na solução, porque é vivida, é provada, já passou por muitos infortúnios e aprendeu que o desespero não contribui para nada. A menina sabe que o mundo não vai acabar por causa de uma desgraça, mas não consegue assimilar isso na prática e muito menos lidar com o pós caus. A mulher sente a angústia da dor, mas sabe que ela ira embora, assim como inúmeros risos foram. A menina é imediatista, a mulher é engenhosa. A menina é medrosa, a mulher é valente. A menina é frágil, a mulher é forte. A menina é aluna, a mulher é especialista.
Tanto a menina quanto o menino para se tornarem, respectivamente, mulher e homem irão perpassar por situações que contribuam para tanto. Sem a adversidade é impossível se superar, se sobressair, crescer. A calosidade da vida não poupa ninguém, mas você tem a opção de escolha: aprender com a vida e se tornar um sábio, ou viver repetindo os mesmos erros e rejeitar a sabedoria. A maturidade carrega consigo a responsabilidade pela vida que se tem.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 13-10-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 


O SEXO ALIENADO


Divergindo de épocas anteriores onde era motivo de tabu, estando fortemente encoberto, sofrendo represália, tanto sua prática em si quanto o simples fato de mencioná-la verbalmente, hoje o sexo emerge de uma maneira diferente, ou melhor, totalmente oposta. Se antes era rechaçado, agora apresenta-se de forma escancarada tanto o falar sobre como o ato em si.
Se outrora a menção dele era reprimida, hoje é estimulada, tanto entre os círculos de amizade, família, como nos veículos de comunicação. Antes era feio, constrangedor, vergonhoso assumir sua prática, hoje é o fato de não praticar que causa embaraço. Se antes as garotas mantinham-se virgens para ser consideradas honrosas, hoje isto é motivo de chacota. O assunto que era pouco abordado e o ato que era aprendido só na prática, geralmente após a união matrimonial, hoje passam a ser de fácil acesso. Informações de como fazê-lo são encontradas em revistas, internet, livros, curso e entre o círculo de amizades, e pode-se colocar em prática o que foi aprendido com muita facilidade.
Sendo entronizado pela sociedade contemporânea, o sexo deixa de ser uma questão de prazer e necessidade, tornando-se uma imposição, uma obrigação, um dever. As pessoas não o praticam pensando apenas em si próprias ou no companheiro, mas existe todo o envolvimento cultural a qual ele está atrelado. Não basta fazer sexo, tem que afirmar-se enquanto ser sexuado diante dos outros.
Existe uma cobrança em torno da questão de sexualidade. Ainda não está claro como isso aconteceu, como chegou a este ponto, mas o sexo começa a ser um peso, mais um compromisso na agenda lotada das pessoas. Não é o descarregador de tensão como a natureza propõe, mas torna-se um promotor de tensão. Há muita preocupação que pairam na mente das pessoas em ser sexualmente aceitas e isto se torna mais um problema.
Foi implantada a ideia de que uma pessoa para ser “saudável” tem que querer sexo todo dia, o tempo todo, sem restrições e qualquer indisposição é tachada de “problema de saúde”. Tem crescido o número de anúncios com mensagens subliminares que para ser feliz tem que ser uma máquina sexual, do tipo “Dificuldade de ter ereção? Nós resolveremos seu problema!”, “Anda indisposta? Temos a solução!”. Poxa vida, se o homem não esta tendo ereções é porque certamente não esta com vontade de transar, se a mulher não está “animada” é porque ela não quer naquele momento! Qual é o problema nisso?!
Nem metade das pessoas que aderem a estes tratamentos tem realmente problemas sexuais.Tem homens que pensam que se não fizerem sexo todo dia já estão com problema de ereção, mas não é bem assim. Estes anúncios cretinos manipulam a mente das pessoas fazendo-as se sentirem desenquadradas socialmente. Mas, sendo sincera, uma pessoa para desejar sexo o tempo todo só se for ninfomaníaca, e aí sim é um problema de saúde.
Sexo é bom, sim, não há contestação! Pizza é gostosa também, nem por isso a comemos de manha, à tarde e à noite. Existem muitas coisas deliciosas de se fazer sem as termos como obrigação. O que é feito com obrigação é desprazeroso. O sexo é o belo, o lindo, o lazer, o prazer, não o transforme em uma tarefa que deve ser cumprida.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 07-10-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

O BEM E O MAL QUE POSSUI CADA UM


 “De médico e de louco todo mundo tem um pouco”, recita a expressão popular, deixando em evidência que ninguém é apenas médico e ninguém é apenas louco, ambos os extremos não podem ser vividos puramente. Cada momento da vida se faz um episódio singular e único que não nos permite ser somente uma coisa, o estático se torna inexistente quando se trata do comportamento humano.
As vicissitudes da vida evidenciam que o agir humano não pode ser domesticado e categorizado como sugere o comportamentalismo, apesar de ser lógico o fato de que comportamentos podem ser moldados, todos estes moldes podem cair por terra diante do “determinismo” da vida. Paradigmas fortemente arraigados podem ser quebrados diante de uma situação que implique em desequilíbrio e aquilo que julgamos que nunca faríamos na vida podemos o fazer sem nos darmos conta disso.
Bondade e maldade é uma dualidade ensinada desde a infância para uma pessoa, e comportamentos são discriminados entre o que é, e o que não é aceitável. Conceitos são implantados em nosso ser de maneira a fazer-nos pensar que são a verdade absoluta, mas um dia eles são repensados e reestruturados diante das adversidades que a vida impõe.
Nas divagações acerca das certezas da vida fica a evidência que nenhuma verdade é valida. Nada é pleno, nunca se alcança o céu, ele é apenas um estado imaginário, fantasioso e irreal. A busca da plenitude talvez motive os comportamentos do dia-a-dia, mesmo sem a esperança de que os resultados deles sejam satisfatórios.
Quantas crianças desejaram um doce que nunca puderam ter. Quantos adultos sofreram com a ausência de um amor intencionado. Quantos doentes sonharam com a cura milagrosa. Quantas pessoas esperam em vão coisas que sabem que nunca irão acontecer. Diante destes “maus” vivenciados nenhuma pessoa sai ilesa, o mal já a possuiu, já faz parte de sua realidade, não há como negá-lo.
“Sofro, desde a epigênesis da infância a influência má dos signos do zodíaco”, disse Augusto dos Anjos, como quem justifica os infortúnios vividos. A alguma “coisa” deve ser atribuído a culpa pelos maus ocorridos evitando assim a desilusão eterna. Algo é então responsável pela impossibilidade humana de ser puritano, o bem e o mal sempre irão o possuir.
A vida é norteada, então, pelas esferas misteriosas do desejo humano, que nem sempre pode ser saciado, mas que é permeado pela ideia de realização. O bem e o mal apesar de serem paradoxos, são também paralelos, andam lado a lado. Em busca de conquistar o que consideramos bom podemos adotar atitudes que condenamos como ruim.
Ninguém nasce forte, mas é estabelecido como forte. Como um diamante que nasce carvão, mas diante das lapidações do meio em que vive se torna uma joia rara e preciosa, as pessoas são formadas na sisudez da vida. Ninguém fica musculoso levantando pouco peso em uma academia. Assim o bem e o mal são criados dentro das pessoas em uma mistura da sua singularidade com a objetividade que o meio propiciou. Ninguém é totalmente bom e ninguém é totalmente ruim, as pessoas são o que no momento presente se fez a melhor alternativa, motivadas pelo instinto de autopreservação.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070


Artigo publicado no jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 29-09-2012. Também disponível nos sites www.saltinhoweb.com e www.afsaltinho.com.br