segunda-feira, 17 de junho de 2013

DOENTES DO FACEBOOK

Não cairia nada mal se a ‘doença do facebook’ constasse no DSM V. Longe de ser simplesmente modismo e carência, algumas manifestações que eclodem nesta rede social beiram a insanidade. O espaço que foi criado com intuito de fortalecimento de vínculos passa longe disso, tornando-se local de exposições exacerbadas dos aspectos mais bizarros de um ser humano. É claro que não se deve generalizar, aqui fala-se de alguns casos específicos.
Fotos de prato de comida, de gente fazendo bico, caretas, publicação de 10 fotos iguais mudando apenas um fio de cabelo do lugar, de pessoas fotografando a si mesmas em frente o espelho são as mais típicas dos ‘doentes do facebook’. Sem esquecer os posts dizendo onde se está, o que se está fazendo, comendo, enfim qualquer atividade tosca que não diga respeito a ninguém além de si mesmo, como se alguma destas informações fossem uteis para o leitor, amigos, humanidade, ou seja, se tivesse alguma lógica ser expostas tais coisas na rede social.
Lógica, palavra intrigante que dá base a esta explanação. O doente do facebook tem dificuldade de ter um raciocínio lógico, aparenta ter perdido a noção de realidade, ter criado um mundo particular (comum nos psicóticos) e compartilhar esse mundo com os amigos adicionados é uma maneira no mínimo constrangedora, e o pior: sem constrangimento algum. Coisas ridículas estão sendo expostas como se fossem motivo de orgulho e coisas que nem deveriam estar sendo divulgadas, por serem pessoais, são escancaradas como se fossem o máximo.
É claro que rendem várias risadas para os equilibrados mentalmente, mas emergem coisas tão inacreditáveis que nem o riso se faz presente e sim a cara de ‘não estou acreditando no que estou vendo’, e certo sentimento de pena da pessoa que se expõe tão vexativamente.
Cada vez mais as pessoas perdem a noção de certo e errado, bonito e feito, agradável e repugnante, formoso e ridículo. Por vezes, fazem confusão entre estes, como se sua capacidade de julgamento estivesse abalada. Fuga da realidade? Talvez! Quem tem uma vida muito miserável tem como mecanismo de defesa criar uma vida paralela.
O doente do facebook tem como característica principal o fato de viver em função de um outro, este outro que o vê (no caso, que ele fantasia estar o vendo), e vive em função deste como numa tentativa de esconder o quão sua vida é desinteressante a mascarando de felicidade. Então expõe os ápices de sua vida que às vezes é um prato de comida, uma foto tentando esconder os defeitos espichando os lábios (implorando por se sentir menos desprovido de beleza do que sabe que é), foto empinando o ‘bumbum’ e assim por diante! Enfim, todas estas atitudes débeis são apenas sintomas de pessoas que gritam por socorro, que tem uma vida falida, infeliz, insatisfeita e não conseguiram elaborar isso, e acabam usando o facebook como terapia alternativa sem se dar conta que isso só denigre a própria imagem.
Até onde isso vai chegar? Não se sabe! Percebesse apenas que a alienação não é pouca, tem ocorrido em massa. Popularmente se diz que na internet se encontra de tudo, e nada mais sensato do que concordar. Tanto a normalidade quanto a bizarrice encontram ai um espaço livre pra se manifestar e proliferar. Comportamentos doentios são reforçados por ser comungado por vários praticantes e vão se estruturando como uma persona de normalidade.

Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 15-06-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

RELACIONAMENTO INTERPESSOAL

O relacionamento interpessoal faz referência a todo e qualquer processo que envolva interação humana. Dá-se por via de influência recíproca entre um sujeito e outro, independente de sua forma de manifestação ser comportamental, verbal ou não verbal, pois até mesmo as projeções de pensamentos ou simples reações físicas deixarão implícito algum conteúdo.
O ato de relacionar-se implica em muita complexidade por ser contínuo, sempre estamos influindo pessoas e sendo influídos por outras. A conexão entre seres é uma via de vai e volta, assim como damos, recebemos concomitante. Não existe possibilidade de esquivarmo-nos de ser incutidos pelas pessoas que nos rodeiam. Apenas delineamos quem somos a partir do outro.
            Não é raro o fato de o ambiente de trabalho ser por nós mais tempo frequentado do que nosso círculo familiar. Passamos demasiado tempo do nosso dia no circuito profissional onde grande parte dos relacionamentos interpessoais ocorre e, juntamente, os conflitos.
Toda e qualquer interação entre pessoas não foge da eventualidade de conflitos, sejam eles simples ou de maior complexidade. Não há como fugir desse fato, já que cada pessoa é única e tem seu jeito singular de pensar e agir que, muitas vezes, vai de encontro ao do outro. No entanto, eles devem ser trabalhados para que não promovam resultados desagradáveis ou até mesmo o rompimento da relação.
Tolerância é uma característica chave para que relacionamentos se estabeleçam de maneira saudável. A habilidade de relevar situações desagradáveis e contornar fatos indesejáveis é adquirida. Só tem boa capacidade de relacionamento interpessoal quem o deseja e se empenha em ter. Através da forma que nos posicionamos diante de uma interação interpessoal escolhemos como será este relacionamento.
Se comunicar claramente, conduzir situações com leveza, ser assertivo, saber se expressar sem invadir o espaço do outro, delimitar o próprio espaço sem acuar o outro, dar espaço para as virtudes e os defeitos alheios, são habilidades comuns em pessoas que cultivam relacionamentos duradouros, tanto de amizade, quanto amoroso e familiar.
Estabilidade plena é algo impossível em se tratando de relação. Adversidades emergem mesmo nos relacionamentos mais felizes, negar isso é negar a realidade. O que existe são relações harmônicas, onde pessoas lidam com o ‘pior’ do outro sem deixar que isso afete o vínculo entre eles.
     Para que relacionamentos interpessoais perdurem e sejam satisfatórios é preciso que haja uma maneira adequada em sua condução, nas mais variadas circunstâncias que venham a perpassar. Requer habilidades, chamadas  de competências interpessoais. Não é um dom ou uma característica inata, e sim um aprendizado contínuo que se dá através das vivências.

Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 08-06-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

A FANTASIA DO AMOR PERFEITO

O amor perfeito é vivido em sua impossibilidade de concretude, é existente apenas em nível de pensamento, fantasia, tudo no campo do imaginário. Na prática depara-se com o desmascarar da ilusão, com a frigidez da plenitude, com o fim de um começo que nunca existiu. O amor na realidade nunca será sublime quanto na fantasia.
Quando nos deparamos com a possibilidade de amor é arquitetado, consciente ou inconscientemente, toda uma estrutura mental a respeito deste sujeito que é um potencial ser pra ser amado, bem como, para todas circunstâncias que permeiam esta relação. Em meio à emergência de uma infinidade de fantasias cercando este sujeito, uma expectativa passa a existir que confronta quando o real se faz presente.
Quando contatamos realmente o objeto amado, o descobrimos, o desvelamos, destrói-se juntamente toda e qualquer possibilidade de amor pleno. Alguém disse que só se ama um desconhecido. O desconhecido é a nossa perfeição projetada em um alguém real e incógnito, que por esse fator se torna possível atribuí-la todas as virtudes que julgarmos necessárias. O desconhecido é criado por nossa ideia de ideal, mas quando a pessoa deixa de ser desconhecido se desmancha toda a construção outrora estabelecida.
O conhecido é um ser independente, que atua além do que queremos ou desejamos, que tem vontade própria, que tem defeitos além do que pensamos, que critica, opina, tem costumes, manias, maneiras subjetivas de ser, e isso destrói o amor. O amor é massacrado com o conhecimento. O amor perfeito, pleno, fatídico só existe no plano da fantasia. Ao deparar-se com a realidade, ele involuntariamente se dissolve dando espaço as imperfeições do sujeito amado. Só resta chorar o amor que se vai, elaborar o luto e se lançar a um novo processo semelhante, ou aceitar este amor imperfeito.
O amor imperfeito não é menos amor por ser mais angustiante. É tão intenso e verdadeiro quanto o amor no plano da fantasia, apenas mais complicado de se vivenciar. Talvez por isso tanta gente tenha preferido manter relacionamentos virtuais. Como é difícil lidar com o defeito dos outros e vê-los agir sem saber o porquê optaram por tais comportamentos, ir de encontro as nossas vontades, questionar nossas verdades, nos travar, confrontar, mostrar outras formas de existir, nos impressionar, nos deixar confusos, atônitos, sem saber lidar com o enigma que é este outro, mas não é impossível de estruturar-se como relação estável. Aliás, é totalmente possível! Qualquer pessoa com maturidade é capaz de fazer esta transferência da fantasia para a realidade e se adaptar a ela, mesmo que com sofrimento e lástima. Isto é o amor verdadeiro.
As pessoas querem uma coisa que não existe e vivem frustradas por não conseguir alcançá-la. Mas a frustração apenas ocorre porque foram criadas expectativas exorbitantemente elevadas, em que não há o mínimo de chance de serem condizentes com a realidade. Quem não fantasia com “contos de fadas” mirabolantes não corre o risco de sofrer tanto com a realidade que, querendo ou não, lutando ou não, jamais será livre de infortúnios.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 01-06-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)