terça-feira, 28 de maio de 2013

INFIDELIDADE

A infidelidade é uma temática de bastante repercussão no cenário contemporâneo. Em uma época em que relacionamentos conjugais mudam de configuração, ou melhor, emergem novas maneiras de se relacionar, o sentido da palavra fidelidade, ou falta desta, sofre uma transformação. Deixando de dizer respeito a simplesmente o ato de ter um relacionamento à parte ao casamento/namoro, a palavra infidelidade passa a compreender outros sentidos.
A nomenclatura infidelidade carrega o significado de deslealdade, falta de sinceridade e traição. Isto posto, remete ao entendimento de que trata-se de uma eventualidade com valores particulares, mensurado de maneira variável de casal para casal. Infidelidade é a quebra do acordo estipulado por ambos os cônjuges que, independente das regras aceitas socialmente, selaram uma espécie de contrato entre sí.
Vulgarmente a infidelidade é descrita como a prática sexual fora do casamento, a maioria das pessoas a concebe assim, no entanto, não se reduz simplesmente a isso. Não se remete a realização do sexo extraconjugal propriamente dita, mas principalmente à falta de honestidade para com a relação, uso de mentiras e rompimento de acordos outrora estabelecidos.
Existem casais que de comum acordo aceitam que o companheiro pratique sexo com outras pessoas desde que não haja um envolvimento maior, outros permitem que o companheiro pratique sexo com outros apenas se o corpo for instrumento de trabalho e não por prazer, há ainda os que permitem que o cônjuge tenha outros parceiros sexuais desde que sejam atos homossexuais, entre outros. Existem infindáveis tipos de acordos feitos por parceiro, o que torna o quesito infidelidade muito subjetivo.
Por mais que a integridade social insista em delimitar um comportamento ético moral aceitável, não há como controlar o pensamento de todos. Cada um tem um histórico de vida que construirá suas próprias concepções de certo e errado. Se duas pessoas concordaram que o sexo com outros é aceito, assim o será. Totalmente diferente de quem fez juras de praticar sexo apenas com o companheiro, aí sim, sendo quebrada a promessa é infidelidade.
Entre homens e mulheres é diferente a maneira de se posicionar frente à infidelidade, principalmente pelo contexto histórico marcado pela intensa vertente do machismo. Querendo ou não, é mais ‘comum e aceitável’ que o homem traia. Quanto este o faz é mais compreendido e não passa pelo estigma que passa uma mulher se for infiel.
Algumas mulheres embora não aceitem explicitamente que seus companheiros tenham relação com outras mulheres, acabam justificando para si própria e para os outros que a traição se deu devido ao instinto sexual masculino. Já os homens que não aceitam que suas mulheres tenham outro companheiro, caso elas venham a ter, fato que configura uma traição, não tem uma atuação passiva como a da mulher, raramente justificam as ações desta, muito pelo contrário, as condenam veementemente.
A temática infidelidade é muito debatida, as pessoas querem entender o motivo causador da infidelidade, mas não existe uma resposta absoluta. Uns traem porque estão insatisfeitos em alguns aspectos do relacionamento atual, outros porque precisam disso para se reafirmar, ainda há quem o faça por hábito, vingança e há os que realmente se apaixonaram por alguém que não o companheiro. As pessoas são diferentes, cada uma tem uma motivação subjetiva para trair (ou para ser fiel).
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 25-05-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

RAPPORT


"Rapport é a capacidade de entrar no mundo de alguém, fazê-lo perceber que você o compreende e que você tem um forte vínculo com ele. É a capacidade de ir plenamente do seu mapa de mundo para o mapa de mundo dele. É a essência da comunicação bem-sucedida", disse Anthony Robbins.
Rapport, palavra de origem francesa que se traduz por empatia, tem como significado a habilidade de se colocar no lugar do outro independente de concordar ou não com este.  Através dele estabelecemos relação de respeito, de solidariedade, compaixão, compreensão com as pessoas com quem contatamos.
Mais do que receber sem julgamentos o que o outro está nos dizendo, significa a construção de um ambiente de confiança mútua. Só conseguimos estar-com em uma relação, verdadeiramente, se este vínculo representar algo seguro. Jamais há entrega quando não nos sentimos confortáveis com uma pessoa.
Sendo uma espécie de sintonia entre pessoas, é percebido em situações de proximidade como amigos conversando, casais em harmonia, crianças brincando, encontros terapêuticos, ou seja, toda relação que representa uma entrega entre duas partes que fazem uma troca autêntica. O rapport tem muito a ver com respeito, aprender a amar o outro, ser humilde, flexível.
É estabelecido, basicamente, de duas formas: naturalmente ou artificialmente. Quando reproduzido naturalmente a pessoa nem se dá conta do processo que é estar-com o outro numa relação de troca e aceitação. A reprodução artificial do rapport é muitas vezes considerada uma técnica que objetiva melhora nos relacionamentos interpessoais, se dá pela técnica de espelhamento.
Espelhamento é entendido como tentativa de harmonizar com a outra pessoa com quem se está relacionando, por vezes se dá por uma imitação sutil da sintonia em que a pessoa está fisicamente e mentalmente para tentar enxergar o mundo através de sua ótica. Espelhar gestos, timbre de voz, ritmo, movimentos, postura, enfim, a infinidade de ações que manifesta este sujeito que está em contato conosco, é importante para o estabelecimento de rapport.
Tudo começa com uma intenção positiva, devemos ter um desejo genuíno de ser com o outro para ai então usar a técnica de espelhamento e o receber adequadamente. É uma aprendizagem, só aprendemos a estar- com o outro na medida que treinamos e percebermos os benefícios de estar verdadeiramente em uma relação de confiança.
Só estabelece rapport com alguém quem tem rapport consigo mesmo. Sempre se projeta algo de si em quem se vincula conosco. As pessoas só se relacionam bem com os outros se elas estão bem relacionadas consigo mesmas. Quem tem aversão de ficar consigo mesmo, terá aversão de estar com o outro. Quem não é bem resolvido com suas questões subjetivas não terá capacidade de estabelecer relacionamento saudável com o outro, muito menos rapport.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 18-05-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

PESSOAS QUE SE FAZEM DE VITIMA


Aposto que todo mundo já se deparou com uma pessoa que se coloca como a injustiçada do mundo. Se ainda não, há possibilidade de você ser essa pessoa. Reclamar, lamentar, lastimar se torna tão habitual a pessoas que se enxergam como vítimas do universo, que quem convive junto a estas nem leva em consideração mais suas lamúrias. Afinal, o ocorrer de eventuais adversidades desperta a solidariedade dos colegas, amigos, familiares, mas quem transforma tudo em adversidade só angaria descrédito.
 As pessoas só têm defeitos, nenhum trabalho é bom, nenhuma amizade é verdadeira, nenhuma atividade é agradável, ninguém é admirável, nada dá certo, nada está legal, tudo é difícil, desprazeroso, chato, problemático, estressante, relatos contínuos de doenças, dores, sofrimento, infortúnios são comuns, enfim, encontrar motivos pra reclamar de tudo e de todos é um comportamento nítido de quem tem o mundo como inimigo. Estas pessoas constroem histórias tão convictas, que passam a acreditar que realmente são coitadinhas e os outros, carrascos. Muitas vezes chegando a convencer alguém disso.
Se posicionando como vítima, além de desviar a culpa de si mesmo acerca das mazelas da qual reclama, existe a possibilidade de culpar um outro ser por tudo aquilo que se está passando. É tão mais fácil culpar o funcionário e atribuir a ele erros do que assumir as próprias falhas enquanto chefe; é tão conveniente culpar o outro por não nos amar à assumir as atitudes nada amáveis que adotamos diante destas pessoas; é tão cômodo julgar os alunos em vez de perceber a própria falha enquanto professor; é tão mais confortável apontar os marginais na rua do que assumir nossa própria contribuição para a marginalidade; é simples culpar os colegas, a secretária, o motorista ao lado, o filho, os parentes por inúmeras coisas que não são muito agradáveis, mas que tem nossa parcela de culpa, ou total culpa por ter ocorrido. Tudo que eclode em nossa vida está sob nossa responsabilidade. Se vitimizar é uma tentativa de fugir desta.
O ponto mantenedor do comportamento vitimizado é que este furta a atenção e misericórdia de alguém que, mesmo que por pouco tempo, despende energia psíquica acreditando que a pessoa realmente foi injustiçada por alguém ou algo. Mesmo isso não sendo a verdade plena, ser vítima implica em um aglomerado de ganhos secundários, além da atenção das pessoas: o apoio, o amparo, a solidariedade, a disposição em lhe ajudar, enfim, muitas coisas satisfatórias. Se não existissem vantagens, o comportamento não seria mantido.
Conviver com gente que se acostumou a ser ‘pobre coitada’ não é algo muito fácil, porque qualquer tentativa que tenhamos de lançar um olhar mais positivo para animá-la, confortá-la ou incentivo a ela sair deste movimento passivo de derrota logo é bombardeado pelas justificações das desgraças vividas. Concordar que a vida da pessoa é uma desgraceira mesmo é uma alternativa válida quando se cansa de vê-la tentando convencer de que é digna de pena. Afinal, chantagem emocional só comove o próprio chantagista, geralmente causa irritação no ouvinte.
Quem consegue identificar em si mesmo esta característica já está em vantagem, pois não é algo fácil assumir os próprios pontos negativos. Se perceber é o primeiro passo em direção à mudança. A frase Lacaniana ‘Qual a tua contribuição na desordem da qual te queixas?’ é importante de ser lembrada continuamente diante das vicissitudes da vida.
As pessoas só colhem aquilo que plantam. Cada pensamento, ação, palavra que lançarmos ao mundo é uma semente que, querendo ou não, vai germinar e implicar em resultados. É má-fé ficar culpando aos outros, culpar o mundo, culpar o destino e se fazer de vítima. A culpa pelo que escolhemos projetar no mundo nunca é do outro, é só nossa. Cada um só é vítima de si mesmo. Quem não gosta do que está recebendo do “destino” deve refletir sobre o que fez lá no passado para estar hoje nesta situação... Sem se fazer de coitadinho, porque isso é desprezível. A vida é apenas consequência do que fazemos ou que deixamos de fazer, ou seja, resultado de nossas escolhas pessoais.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 11-05-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)