quinta-feira, 3 de outubro de 2013

VÍCIO: O TERMÔMETRO DO FRACASSO

São tantas “modalidades” de vicio, que quando pensamos que conhecemos todas, emerge mais uma para nos surpreender. Vício em jogos, cigarro, bebida e demais substancias psicoativas são os considerados clássicos junto ao colecionismo, enquanto entre os mais contemporâneos se destacam os vícios em sexo, comida, malhação, celular, facebook, trabalho, paixão, furto, cirurgia plástica, balada, remédios, limpeza e mais uma infinidade. Há uma linha tênue entre vicio e obsessão, sendo que o primeiro sempre carrega consigo características obsessivas.
A palavra vício emerge como oposição a virtude. Derivando do latim “vitium” que tem como tradução falha e/ou defeito, o vicio significa a repetição de um hábito que represente algum tipo de prejuízo a quem o pratica e as pessoas a seu redor. Um viciado nada mais é do que um escravo de seus descontroles prejudiciais.
Um vício se inicia por via de uma situação desprazerosa que se esteja perpassando na vida, diante disso a pessoa encontra em algum objeto ou atividade uma opção para diminuir esse desprazer pelo que esta vivenciando, concomitante a obter uma forma de satisfação. Quando associa o prazer a esta “coisa” tende a aumentar a frequência de sua pratica e é ai que um vício começa a se instalar. Assim, toda vez que a pessoa experiência uma sensação de desconforto procura ameniza-la de uma forma que funcionou outrora e gradativamente se torna dependente da satisfação oriunda do objeto do vício. Todo habito que se manifesta excessivamente é um sinal de alerta.
Lembro-me de ter assistido um filme em que uma das personagens dizia que “cigarro é coisa de gente descompensada”, apesar de a postulação ter sido feita de uma maneira pejorativa e cômica, por o filme se tratar de uma comédia, tem lá alguma fundamentação, como a própria Psicanálise revela, todo chiste/piada/tirada espirituosa diz respeito a alguma verdade. O vicio, não apenas no cigarro, mas em qual objeto ou atividade que for, é sintoma de pessoas com problemáticas subjetivas mal elaboradas.
            Eu, particularmente, nunca conheci uma pessoa que tivesse qualquer tipo de vicio que não ostentasse algum tipo de fracasso na vida. Pessoas viciadas são pessoas que não tiveram habilidades suficientes para lidar com seus infortúnios, não enfrentaram assertivamente suas dificuldades, derrotas, peripécias da vida e permanecem na frustração por seus conteúdos mal resolvidos. Em vez de procurar ajuda para resolver, de fato, suas problemáticas, optam por eleger um objeto/ação de escape para fugir da angustia da sua realidade. O viciado nada mais é do que um fugitivo de sua realidade falida.
Isto tudo não é uma condenação, mas uma escolha. A pessoa optou por algo que tire o foco da sua realidade insatisfatória por alguns momentos, em vez de trabalhar as questões que lhe incomodam. O vicio é uma opção não inteligente, que produz alívio momentaneamente, mas não resolve nada. Pode-se dizer que vício é um remédio ineficiente com muitos efeitos colaterais.
Os vícios são curativos sujos para as feridas da alma (Autor desconhecido)

Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070

Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 14-09-2013. Também disponível nos sites www.saltinhoweb.com e www.afsaltinho.com.br 

3 comentários:

  1. você conhece alguém SEM fracassos na vida?

    Não acha superficial resumir todos os vícios na fuga de uma realidade falida?
    Um vício pode se manifestar de várias maneiras, em várias ocasiões diferentes. Não acho que frustração seja um pré-requisito para vícios.

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  2. Não conheço pessoas que nunca tiveram fracassos na vida. Mas conheço pessoas que os perpassaram, superaram situações muito conflitantes e conseguiram dar a volta por cima, ressignificar e ainda tirar proveito das peripécias da vida e outras, em contrapartida, que tiveram o movimento oposto, que presentificam o passado dia apos dia, num martírio infindável, que não encontraram uma maneira de elaborar os sofrimentos, infortúnios e permanecem com feridas abertas, mesmo tendo passado ha tempos a época de cicatrização.
    Quando usei a frase "ostentasse um fracasso na vida" me referi a carregar eternamente o fardo/dor/sofrimento por coisas não resolvidas internamente.
    Até faço uma retificação, pois por via de sua colocação me dei conta que o jogo de palavras que escolhi no texto entonou um tanto agressivo e não foi esta minha ideia. A intenção do artigo é trazer a compreensão de como um vicio se instala (sendo que tem gente viciada em coisas sem se dar conta, como mencionei no primeiro paragrafo) enfatizar a importância de tratarmos os vícios e de clarear como eles não podem fornecer nada de bom na vida de uma pessoa, pois é uma prisão que só proporciona desvantagens, prejuízos...

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  3. Obrigada pelo comentário Giorge. Me foi muito pertinente, útil e construtivo.

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