segunda-feira, 28 de outubro de 2013

AMOR PRÓPRIO

Sábia foi a percepção de Carlos Drummond de Andrade transmitida pelo verso: "Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… pessoas, tarefas, crenças, tudo e qualquer coisa que me deixasse para baixo. De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama… amor-próprio."
Amor próprio nada mais é do que a aceitação positiva, a graça, a admiração que cada pessoa tem pelo valor que acredita possuir, é uma estima pelo preço que destina a quem se é. Muito além do que considerar as situações perpassadas ao longo da vida entre sucessos e fracassos, amar a si mesmo diz respeito a uma questão interna e subjetiva de ter respeito e carinho por quem se é independente das imperfeições, saber reconhecer as qualidades e talentos e lhes dar méritos.
Mede-se a proporção do amor próprio em uma pessoa pela forma que ela conduz a relação consigo mesma e com tudo que a circunda, pelo que ela destina a si mesmo e o que ela permite que o outro lhe inflija, pelo que ela aceita ou rejeita, ou seja, por todas as escolhas que ela fez. Para ter uma conclusão do quanto uma pessoa se ama não é necessário uma analise tão profunda, basta prestar atenção a o que ela faz consigo mesma.
Cada um escolhe para si aquilo que julga digno, apropriado, merecedor de possuir, até mesmo quando isto represente algo indesejável. Há uma dualidade: o que eu desejo (que é uma reflexão consciente) e o que eu realmente, profundamente acredito que mereço (um conceito inconsciente). Isto dificilmente ocorre de uma maneira que a pessoa se dê conta de que é ela que tem escolhido para si mesma.
Os tipos de relações mantidas refletem muito sobre o quanto nos amamos, pois são padronizadas. Sempre iremos nos relacionar de maneiras semelhantes, mesmo que com pessoas diferentes. Atrair consecutivamente o mesmo tipo de pessoa, ou melhor, escolher se articular com determinados perfis, estabelecer certo padrão de se relacionar, independente de ser uma vinculação amorosa ou de amizade, revela muito sobre a crença que a pessoa tem a respeito de si mesma. Significa o tipo e o tanto de amor que ela acha justo receber (ou deixar de receber).
Quem não se ama ou se ama pouco tem um julgamento acerca de si próprio de que não é bom o bastante, ressalta os defeitos e devido a isso não se considera merecedor de coisas boas. É comum permanecer em relacionamentos abusivos, viver em função de satisfazer o outro, se colocar como objeto agradando além dos limites, pois acha que só assim receberão afeição. Agir com passividade eclode normalmente pelo temor de que o outro descubra que não se é bom o suficiente.
Quem se ama conhece suas potencialidades, reconhece o valor que tem, não escolhe para si coisas que lhe prejudicarão, não aceita passivamente que os outros lhe façam coisas desagradáveis, não permitem que se estabeleçam relações abusivas. Sabe se impor, sabe colocar limites, se presentear com coisas apetecíveis, respeita o próprio corpo e a própria mente. O que não significa querer sempre que os desejos sejam satisfeitos, pois isso é egoísmo e mesquinharia.
Se há insatisfação em alguma escolha feita, seja no trabalho, no relacionamento amoroso ou de amizade, de saúde, enfim, em qualquer âmbito da vida é importante repensar o papel que vem se escolhendo para desempenhar. As coisas só se mantém em nossa vida se estivermos de acordo que elas permaneçam. Se algo desagradável tem se repetido devemos questionar: “O que estou fazendo comigo?”
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 26-10-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 


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