sexta-feira, 1 de março de 2013

INTERESSEIROS OU SELETIVOS?


Vejo como as pessoas estão habituadas a denominar de maneira insultuosa os outros de "interesseiros". Se uma pessoa tem um relacionamento amoroso com alguém que se destaque de alguma maneira, principalmente financeira, já é motivo de ser chamada de interesseira. Mas será que o é?
O adjetivo “interesseiro” tem como definição: pessoa que somente se relaciona com algum interesse pessoal; que não considera as qualidades subjetivas de um pretendente, apenas o benefício que terá ao se relacionar com ele; que só se entrega amorosamente se obtiver vantagens com isso e com pessoas notavelmente superiores a sí; e que em hipótese alguma fica com alguém sem obter ganhos.
Entretanto, nem todas as pessoas que elegem parceiros bem sucedidos são interesseiras, algumas são simplesmente seletivas. Pessoas de um bom nível (social, intelectual, financeiro, profissional ou outro), por terem consciência disso, jamais se submeteriam a um relacionamento com uma pessoa mediana. Interesseiro é quem se coloca em relacionamentos desiguais em que é discrepantemente inferior ao companheiro, enquanto o seletivo se relaciona apenas com pessoas num grau de evolução semelhante ao próprio. Eis a diferença.
Uma pessoa inteligente (que NÃO é sinônimo de ter uma formação superior, pois isto é muito acessível hoje em dia), que se destaca em algum ramo de atividade, batalha pelas coisas que acredita ou gosta, é conhecida e reconhecida por suas conquistas, alcançou sucesso em algum âmbito da vida, cuida da aparência física e da saúde, está sempre aprendendo novos ofícios, idiomas, conhecendo lugares, se lançando a novas possibilidades, enfim, sempre evoluindo, dificilmente se submeterá a um relacionamento com uma pessoa que exala fracasso, a não ser que tenha sérios problemas de autoestima ou não tenha consciência de si. Sempre digo que as pessoas andam com quem elas se parecem, e a cada dia tenho mais convicção desta tese. Se alguém que julgamos invejável se relaciona com alguém de pouco mérito, é porque ela mesma se considera como tal.
Assisti na internet uma cena do programa "Mulheres Ricas", que passou não sei quando e não sei em que emissora de televisão, no qual um dos participantes dizia “Quem gosta de velho é a Val (Marchiori)”, a zombando por ser casada com um homem mais velho, e esta respondia “Eu gosto de homem inteligente e bem sucedido”. Foram demasiado congruentes as palavras que ela usou como resposta. Como que uma empresária bem sucedida vai se envolver amorosamente com um homem inferior a ela. Isto a rebaixaria. Não importa se a pessoa é mais velha ou mais nova, mais feia ou mais bonita, mais alta ou mais baixa, o importante é que esteja num mesmo patamar que o outro. Uma pessoa bem sucedida desce de nível ao se envolver com pessoas mal sucedidas (não me refiro apenas à posição socioeconômica, mas principalmente à intelectual). Agora, se ela fosse uma pessoa pobre de conquistas, ou desempregada, ou sem atividade alguma, que vivesse como sombra deste homem, o título de interesseira seria congruente.
Há pouco tempo conheci uma mulher, que na minha ótica aparentava ser uma pessoa instruída, bem sucedida e realmente muito bonita. Ela relatava com desânimo sobre o seu insucesso amoroso quanto mencionava seu relacionamento atual, com uma pessoa nitidamente inferior a ela, e de todos os outros relacionamentos passados que sempre tinham o mesmo perfil. O que mais me chamou atenção foi que enquanto justificava que merecia relacionamentos melhores por ser uma pessoa com várias qualidades que citou (as quais concordei com todas), fez uma referência que me deixou intrigada: mencionou a amiga “interesseira, que nem era tão bonita” que sempre se dava bem, sempre ficava com “os melhores homens” e que estes faziam de tudo pra ficar com ela, expressando repudio por esta amiga, falando hostilmente sobre ela, usando adjetivos muito pesados. Fiquei em alerta, percebi o quanto ela queria esta no lugar desta amiga, quanto a invejava, e aquele frase Freudiana “quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo” fez sentido.
As pessoas sempre elegem parceiros que julgam como semelhante. Assim, quem tem autoestima abalada só se permite escolher parceiros medíocres (sendo que inconscientemente se acha pouca coisa), e vai mantendo um círculo vicioso que destrói cada vez mais sua autoimagem. E por isso sente a necessidade de denegrir quem conquista coisas que ela mesma se julga incapaz de conseguir. Se existia um interesseiro na história de vida desta mulher eram os homens com os quais ela se relacionava, pois a amiga era apenas uma mulher seletiva.
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 02-03-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

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