quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

CALAMIDADE E OS FALSOS MISERICORDIOSOS


Quando abri meu facebook no dia 27 o que tomou conta da página foram inúmeros compartilhamentos de luto. Atônita e curiosa com o ocorrido, não hesitei em pesquisar na internet sobre o assunto e me informei sobre tal (tendo em vista que não sou adepta a televisão). Realmente, uma tragédia muito triste, comovente, digna de solidariedade ocorreu em Santa Maria, a qual não é preciso relatar, certamente todos já tem conhecimento. Mas o que me inquietou foi a sensação de mediocridade referente à suposta solidariedade de alguns indivíduos.
Lógico que muitas pessoas realmente ficaram abaladas e se colocaram no lugar dos familiares, são estas as pessoas com o verdadeiro coração bom, que sei que fazem tudo o que podem e até o que não podem para ajudar o próximo, pois não suportam ficar indiferentes ao sofrimento alheio. Entretanto, o que me chamou a atenção foi algumas pessoas que não são nem um pouco altruístas forjarem e fazerem um sensacionalismo em cima do ocorrido.
Vi pessoas que postaram “luto por Santa Maria” que se quer tem humanidade de tratar as pessoas com generosidade. Afinal, de que adianta vestir a carapuça de sensibilidade se quem te conhece sabe que não passa de autopromoção em cima do sofrimento alheio? Fica até feio pra você que trata mal o caixa do supermercado, que é ríspido com a secretária, que destrata os pais em casa, que não cumprimenta a zeladora do prédio, que buzina para o carroceiro no trânsito, que menospreza os colegas de trabalho, que ofende as pessoas, se fazer de misericordioso sem o ser.
Realmente, as tragédias mobilizam as pessoas, não tem como não ficar tocado com uma catástrofe destas. Porém existem muitas catástrofes ocorrendo dia após dia a seu redor, às vezes até mais dolorosa que estas. Vi uma mulher comentar o fato de que tem tantas pessoas morrendo de fome na África e ninguém se comove, mas nem é preciso citar algo tão distante. Tem gente morrendo de fome e de doença na cidade em que moramos e muitas vezes permanecemos alheios a isso.
Como uma pessoa que não se comove com o sofrimento latente esfregado no seu nariz dia após dia, não presta socorro aos necessitados e aí vem através de frases de solidariedade afirmando ser piedoso. Que tipo de piedade é essa?! Uma pessoa piedosa não precisa gritar aos quatro cantos que o é. A piedade é um aglomerado de atos e não de palavras. Não precisamos nos empanturrar de frases solidarias se a solidariedade nunca é encontrada posta em prática em nosso cotidiano. Isto é hipocrisia!
Antes de escrever subliminarmente “sou bonzinho” nas redes sociais vá doar cobertor para os moradores de rua, faça sopão para os mendigos, recolha um animalzinho de rua, use sua profissão voluntariamente para quem não pode lhe pagar, leve remédio aos doentes, denuncie maus tratos, ajude quem precisa, não se cale diante de pessoas que sofrem. Como disse a publicitária Camila Bill “Falar é fácil, quero ver ir lá e fazer alguma coisa por alguém. Eu vou.” Se você também vai, não precisa falar, vá lá e faça! Não precisa ir pra África, nem pra Santa Maria, nem pro Haiti se você não puder (se puder, ótimo). Mas no trajeto de sua casa até o supermercado eu tenho certeza que você encontrará alguém por quem você possa fazer algo, colocar sua bondade em prática. Quem se compadece genuinamente com o sofrimento dos outros não o faz apenas com os que estão longe, o faz principalmente com os que estão próximos.
Hoje, eu não posso ir ao Nordeste ajudar os que morrem cotidianamente em nosso país, mas eu posso levar alimento para famílias que moram em baixo da ponte (nunca dar esmola, pois incentiva a malandragem), posso levar ração para os abrigos protetores dos animais, posso ajudar uma amiga que sofre por amor, posso confortar alguém que perdeu um ente querido, posso levar calor humano ás crianças abandonadas, posso defender quem foi humilhado, posso denunciar quem sofre violência, posso cuidar da filha de uma amiga para ela ir fazer um curso, posso oferecer um atendimento psicológico a quem não tem condição para custeá-lo, posso agir um simples amparo ou uma sutil ajuda, porém posso fazer algo. E você, o que você pode fazer além de escrever no facebook?
O mundo grita por pessoas bondosas, por estar infestado de gente ao oposto destas. Não seja mais um falso misericordioso. Não seja conivente com o sofrimento alheio. Não fale. Faça!
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 02-02-2013
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário