domingo, 2 de dezembro de 2012

VERGONHA: O ANSEIO DE SER JULGADO


O número de coisas que fazemos sem desejar fazer, bem como, o número de coisas que deixamos de fazer por não ser conveniente fazer, é colossal. O que pensamos que o outro pensa da gente é um forte direcionador de nossas ações. Segundo Sigmund Freud, esta instância psíquica regrada de nosso ser é chamada de superego. Como o nome já diz, é o “super ego”, aquele que vem para sancionar a lei, ou seja, nos mostrar o que pode ou não fazer.
É aquela velha história que aprendemos desde criança. Temos que nos comportar na frente das pessoas e reprimir nossas vontades para realizá-las em outras ocasiões. Assim, elencamos coisas que podem ser feita publicamente e coisas que só podem ser feitas em casa. Tem um ditado popular que diz que mulher feia é igual à pantufa, ótima de usar em casa, mas sair na rua com ela nem pensar. Ditado bastante machista, mas serve para exemplificar.
Outra vertente que se debruça sobre esta questão é o Existencialismo, abordando a existência em-si e existência para-si. A primeira consiste no mundo dos objetos, apenas é, não tem existência própria (materiais, animais), já a segunda refere-se ao mundo da consciência que tem o possível como seu elemento constituinte (humano). O para-si pode fazer coisas com o em-si, e não o contrário. No entanto, quando deixamos de fazer algo que queremos por ter vergonha, nos coisificamos, ou seja, convertemos nossa existência para-si na em-si, nos colocamos como um mero objeto que vive em função do outro e este é um movimento bastante comum.
Sempre tem algo que a gente adora fazer, mas não faz por vergonha, por medo de ser julgado pelo outro, que na verdade nem irá julgar, mas nós mesmos nos inferimos este julgamento. Às vezes o medo é tanto que chega a ser infausto, da à impressão que a vergonha atrai desastres.
Aquela ceninha típica de uma pessoa andando bem bela e formosa e, de repente, escorrega e leva um tombo fenomenal é conhecida de todos. O tombo não chama tanto a atenção quanto a cara de envergonhado do sujeito que só não chora porque tem gente olhando e, se alguém pede se está doendo ou machucou diz que não, mesmo que não consiga nem andar direito. Isso é um exemplo de pessoa se coisificando, porque provavelmente machucou.
John Bradshaw afirma que a vergonha é “emoção que nos deixa saber que somos finitos”. Assim, pode-se dizer que a vergonha vem para impor limitações, é algo que ocorre em situações embaraçosas e que não se tem repertório comportamental suficientemente adequado para enfrentá-la. Por isso, gera constrangimentos.
Tem gente que não fala o que pensa. Tem gente que não faz o que quer. Por que será? Isto é um indicador que todo mundo quer causar uma boa impressão. Ou seja, deixamos de ser quem somos em função do outro, viver de aparência se tornou natural. O que se espera acerca do julgamento que o outro faz esta se tornando cada vez mais importante do que a própria subjetividade.

Katree Zuanazzi

Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 26-11-2011.

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