quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

RELAÇÕES DE PERDA: O DEPARAR-SE COM A MORTE


Quando se reflete sobre o morrer debruça-se sobre as várias faces do fenômeno morte. O deixar de existir, o parar de ser, o fim do sopro de vida, o inicio da decomposição corporal, a conclusão de uma etapa, o começar de outra, mas tudo isso tem uma coisa em comum: o abrir mão de algo.
Quem nunca perdeu algo? Já que, cá entre nós, isto é impossível. A vivência de perdas norteia todo o decorrer de uma vida, acontece até mesmo sem que nos demos conta disso. É um evento corriqueiro, cotidiano e eterno. Perdemos amigos, perdemos animais, perdemos objetos, perdemos cabelos, perdemos peso e mais uma infinidade de coisas incluindo a própria vida. Isto prova que perder é a coisa mais natural que existe no mundo, o luto é um processo constante na vida.
Os filósofos já deixaram registrado, de maneira bem evidenciada, que a única certeza que se tem ao nascer é que um dia emergirá o fenômeno morte, ou seja, perda da vida. Mas por que algo tão comum, tão corriqueiro, tão certeiro instiga e implica em intenso sofrimento psíquico? A situação de deparar-se com a perda remetem a finitude, a fraqueza, aos limites, tanto biológicos quanto constituintes, deixando incontestável a impossibilidade do ser humano de exercer poder supremo sobre os eventos naturais tendo que, a partir disto, assumir sua condição de impotência.
Sartre diz que o projeto original do homem é ser Deus. Deus é simbolizado como aquele que pode tudo, faz o que julga melhor e atua sobre o existir. Fica evidenciada a ideia de que com a execução deste projeto se objetivaria ter plena poder de ação sobre a vida e a morte. Mas isso seria possível?
O mundo gira em torno de técnicas, métodos e invenções que visam vencer a morte, ou melhor, prolongar a vida. Está na essência do ser a ânsia de lutar contra a morte, pois perceber a própria decadência não é nada fácil. Porém, fica nítido que tal projeto não tem possibilidade de ser efetivado, tendo em vista que por mais que a qualidade de vida tenha melhorado com a tecnologia e a expectativa de vida tem subido progressivamente, ainda não há possibilidade de evitar a morte de corpo. O que resta é aprender a lidar com o fenômeno morte.
Quando eclode a morte de alguém próximo faz com que venha a tona esta certeza [fim da vida], que é a única diante do viver, e faz com que as pessoas se coloquem em questão acerca de quem são e o que são perante o mundo, e se deparem com a sua própria morte. Se o outro morreu significa que eu também morrerei, e fica-se em luto pela finitude perdida, pela fantasia roubada e pelo medo do desconhecido.
Mesmo sabendo que tudo é um ciclo, sempre é difícil lidar com o final de um deles. Maurice Maeterlinck disse que “a vida é a perda lenta de tudo o que amamos”.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 04-02-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

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