sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O VERDE DO GRAMADO ALHEIO NEM SEMPRE É TÃO VERDE


“Nunca soube de alguém derrotado. Nunca ouvi ninguém dizer que perdeu. Todo mundo só se dá bem na vida. [...] Nunca soube de alguém enganado. Nunca ouvi ninguém dizer que doeu. Todo mundo só faz coisas perfeitas. O único errado atrasado sou eu”, diz a letra da música Fernando Pessoa Blues da banda Velhas Virgens.
O ato de comparar-se com os outros abre uma brecha para o sentimento de inferioridade, mas não significa necessariamente que o sujeito que faz a comparação o seja. Como a antiga expressão avisa que “o gramado do vizinho é sempre mais verde”, olhar fixamente para as conquistas alheias acaba ofuscando as próprias, ou melhor, as banalizando, rebaixando, ignorando, tirando seu apropriado mérito. Dando continuidade à linguagem simbólica, podemos dizer que focar demasiadamente o gramado alheio nos faz esquecer-se de cuidar do nosso. Mas não se resume simplesmente a isso. O problema é quando o vizinho esfrega o seu gramado voluptuoso em nossos narizes insinuando que o nosso é um simples matagal. Aí sim, se não formos pessoas centradas e sabidas do próprio valor, o sentimento de fracasso toma conta.
Sentir-se a escória da humanidade se torna condição em alguma ocasião da vida, e não importa o que entes queridos façam para reverter essa concepção de mundo no momento, ela não muda. Ao contrário, nestes períodos de crise existencial quanto mais é refletido sobre o motivo da angústia mais são enaltecidas as derrotas próprias e as vitórias alheias. Quando uma pessoa se coloca na posição de fracassado ninguém pode tirá-la de lá, além dela mesma.
A questão que irrompe é: É habitual as pessoas desejarem mostrar suas conquistas diante da sociedade, até porque, tem-se a falsa impressão de que ela só é valida se contemplada por alguém. Não basta ter, tem que ostentar ter, ou melhor, às vezes nem precisa ter, o simples fato de aparentar já proporciona satisfação.
Que nem tudo é o que aparenta ser, ninguém duvida. Ainda mais em um mundo de falsas aparências de perfeição, quem não consegue se encaixar ou se acostumar em “aparentar” pode sentir-se como um filhote de pomba perdido entre as galinhas que, contemplando a vasta penugem de seus companheiros menospreze suas pequenas, porém nobres, penas. O exibicionismo em massa camufla, disfarça, faz esquecer o fato de que a virtude não se remete simplesmente em grandiosidade de feitos, mas sim no mérito que eles carregam.
As pessoas querem esconder suas imperfeições com medo de serem julgadas, porque elas próprias julgam, não só aos outros como a sí mesmas. Encontra-se facilmente por aí gente que não é o que demonstra ser, nem o que diz ser. Na maioria das vezes as pessoas afirmam ser melhores do que realmente são, como se a "mentirinha" tivesse a potência de transformá-las.
O motivo que faria alguém se importar em te convencer que as conquistas deles são grandiosas é porque ele não convenceu nem a si próprio. Quem tem consciência e clareza de seu potencial não precisa se exibir em busca de aprovação alheia, pois sabe o que tem e seu valor e o reconhecimento é inevitável.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08\17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 25-08-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)


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