segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O TETO DE VIDRO DE QUEM ATIRA PEDRAS


Averiguar as mazelas alheias sempre foi, e sempre será, demasiadamente mais fácil do que enxergar, assumir e verbalizar acerca das próprias desgraças. Talvez a atitude de ficar fofocando a respeito da vida dos outros tire um pouco da atenção da própria e, com isso, dê a falsa sensação de que esta não possui ruínas a serem comentadas. Apenas a vida do parente, do vizinho, do amigo é vista como problemática. Pode-se dizer um mecanismo de defesa, em busca de negar a própria vulnerabilidade humana e enfatizar a do semelhante.
O cômico da questão é que normalmente quem tem o deselegante hábito de julgar, falar mal, mexericar acerca das particularidades de seus conhecidos possui conteúdos bem mais vexatórios em sua vida privada. Algumas vezes sabe e não assume, outras finge que não vê, como se isso extinguisse a questão, e há ainda quem vive dentro de casa exatamente o que aponta na vida alheia sem se dar conta disso.
Um empresário que alarma para a cidade toda de seus clientes devedores, mas que coincidentemente também possui dívidas em vários locais; Uma mulher que diz pra todo mundo que o sobrinho usa drogas, mas que na verdade não sabe, ou finge não saber, que o próprio filho é usuário; Um homem que afirma que a amiga da filha não presta porque é “namoradeira”, mas que tem a filha morando com o namorado há anos sem que ele saiba; Um senhor critica o filho do amigo por ser homossexual, sem saber que sua filha também o é; Outro julga a filha do vizinho que engravida aos dezessete anos, mas um tempo depois a sua engravida aos quinze; Estes são uns dos exemplos que mostram que não é muito pertinente “cuspir para cima”, porque como o dito popular diz “pode cair na cara”.
Quem se precipita ao falar certamente sofrerá a pena, quem simula ter uma vida perfeita ao citar a dos outros ignora o fato de que o futuro é incerto. Hoje seu companheiro pode estar em uma fase não muito agradável, mas mais cedo ou mais tarde em algum âmbito da vida chegará um momento que você também passará por alguma.
Tudo muda, nada é estático, vivemos, querendo ou não, em constante e intensa transformação. O rico pode falir a qualquer momento, bem como, o miserável pode mudar de vida, o doente pode ser curado e aquele que era o são pode enlouquecer da noite para o dia, a novidade envelhece, as ideias mudam, as verdades se reestruturam, a puta pode virar santa e aquela menininha confiável, super ingênua, pode enganar todo mundo. Nem tudo é o que parece, e o que parece, mesmo que seja, pode mudar.
Tem um ditado, cuja autoria desconheço, que diz que “o gordinho emagreceu, o nerd ficou rico, o que chorava calou a boca de todo mundo, e você que tanto julgou, se tornou o que mesmo?” Só pela entonação da frase remete-se a certeza de que este que julgou se tonou um nada, um fracassado, porque se fosse algo significante sem dúvidas seria lembrado. Fica a reflexão no ar: o que você ganha atirando pedras no telhado alheio sendo que o seu pode ser quebrado a qualquer momento? Não seria mais sábio você trabalhar em prol de estruturar o seu em vez de molestar o do outro?
Psicóloga katree Zuanazzi
CRP 08/170170

Publicado no Jornal de Notícias "O Paraná" dia 17-08-2011
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998) 
        

2 comentários:

  1. Muito bom esse artigo!

    Conheço uma pessoa que aconselhou o meu pai a recusar o pedido do meu irmão para que todos morássemos juntos quando ele e sua namorada engravidaram. O pedido foi no intuito de dividir as despesas da casa, uma vez que foi uma gravidez precoce e inesperada.
    Foi dito que meu pai precisava deixar meu irmão "se virar sozinho". A grande ironia (para não dizer hipocrisia) é que essa pessoa, já de certa idade, com filhos e marido, morava e mora até hoje na casa dos pais. Nunca "se virou" para comprar ou alugar um imóvel. E seus filhos? Também engravidaram antes do casamento e estão morando lá, todos juntos no mesmo lugar.
    Como diz o ditado: "Não cuspa para cima, pode lhe cair na cara!"

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  2. Também gostei desse artigo, é a pura verdade, quem muito julga o outro tem mais coisas a serem apontadas do que ele. Pra mim o fofoqueiro é um invejoso

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