segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O ENLUTADO QUE SOMOS


O luto é descrito como uma reação de uma pessoa diante de um rompimento, seja ele qual for. Os rompimentos são uma quebra de relação imediata ou gradativa com “coisas” com que estávamos acostumados a conviver. São sentidos por nós como um abandono ou que fomos logrados pelo mundo. Podemos defini-los como perdas.
São várias as perdas vivenciadas no percorrer da vida: perda de emprego, perda de oportunidades, perda de relacionamentos, perda de animais, perda de roupas, perda de sonhos, ou seja, perdas concretas e perdas simbólicas. Mas o que é entronizado como referência entre os lutos, sem dúvida alguma, por ser o mais doloroso e cruel, é o luto diante da morte de alguém com quem temos vínculos afetivos.
Vive-se com a certeza de que um dia, mais cedo ou mais tarde, esta dor adentrará nosso ser, e não apenas uma vez, porém repetidas vezes, tendo em vista que todo ser vivo ao nosso redor está condenado a este triste e fatídico fim, inclusive nós mesmos. Somos enlutados eternos, da morte alheia e da nossa própria morte.
Uma perda sempre vai ter como principal característica o fato de ser uma eventualidade a qual não conseguimos fugir de forma alguma. Tentamos, mas aceitando ou não nada escapa de sua ocorrência. Uma perda é o irremediável da vida, o que foge do nosso alcance, o que nos torna paralisados diante do mundo, o que nos coloca em angústia pela impossibilidade de ações modificadoras do fato indesejado. As perdas de entes queridos por morte representam um fim, um término do ciclo de vida de alguém, enquanto nós vamos terminando de concluir o nosso.
A morte está ai, sempre presente, circundando todas as vivências. Basta nascer para se ter convicção que se está morrendo.  É difícil encontrar quem não tenha perdido alguém querido, e se ainda não perdeu, certamente perderá. Mesmo tendo convicção que isto emergirá a qualquer momento, há em nós um pensamento de infinitude, parece que vai acontecer com os outros, que está distante de nós. Quando nos deparamos com a ocorrência, quando sentimos na pele a dor da perda de alguém amado, a frustração inominável de nossa impotência diante do fato toma conta. Se sentir incapaz de dar vida à pessoa querida, vê-la partir e não poder nada fazer implica em demasiado sofrimento psíquico.
É totalmente normal e esperado ficar transtornado diante do falecimento de quem se ama, pois representa a perda de uma pessoa com a qual se tinha um vínculo e esse vinculo era importante na vida, houve um investimento em relação a ela, ela era significativa. Quando perde essa pessoa não se tem mais em que investir, da forma que era na relação, e não se tem mais o retorno que ela dava, vive-se um “vazio existencial”. Quanto maior é o vínculo com a pessoa, maior é a dor e mais difícil superá-la.
Quando morre alguém há uma fase de adaptação, o luto nada mais é do que uma despedida de algo de deixou de ser, que nunca tornará a ser e que era importante para nós, e também uma adaptação a uma nova forma de viver com a ausência da pessoa que gostávamos. No período de luto iremos nos reposicionar no mundo, aprendermos a viver com a falta que o outro faz.
Primeiro a pessoa desaba, porque não sabe o que fazer com aquele sofrimento. Chorar é fundamental, é necessário este momento de despedida, este sentimento precisa ser exteriorizado para ser elaborado. As lágrimas e a fala excessiva são características comuns do enlutado, é uma forma de tentar amenizar a dor. Aos poucos a pessoa vai se reconstituindo, se reerguendo, aprendendo a viver com a falta do outro. Não que a pessoa deixe de sofrer, mas fica um pouco mais familiarizada com a ausência.
Se este sentimento é suprimido, calado, sufocado, a pessoa não consegue ficar bem e tem uma maior possibilidade de surtar futuramente. O sofrimento guardado vai ser mal resolvido, isto é chamado de luto complicado. Pra se elaborar um luto a pessoa necessita transitar pelas fases de desespero e, posteriormente, se reerguer.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 15-12-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

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