quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

LUTO


De todas as dores que uma pessoa pode sentir, nenhuma se assemelha a perda de alguém amado. O processo, sem dúvida alguma, mais penoso na vida de um ser humano é o luto. Quando alguém morre, morre um pedaço de quem fica.
No começo parece que a pessoa não morreu de verdade, que é um susto e que ela logo acordará, e tudo ficará resolvido. Dá uma tristeza, uma dor no peito, uma vontade de ir correndo pegar a pessoa no colo, como se o amor tivesse capacidade de ressuscitar. É como se fosse tudo um sonho, que em breve o despertar libertaria daquele pesadelo.
Com o passar do dia a sensação piora porque vai percebendo que, de fato, a pessoa não retornará jamais, que ela se foi e que nada no mundo será capaz de trazê-la de volta. É a parte mais dolorosa, o choro desesperador toma conta do cenário, a dor, angústia, falta de ar, náusea, ânsia de vômito, vontade de morrer junto, é indescritível esta dor. Este momento você já teve contato, ou esta prestes a contatar com o cadáver.
Ao olhar para o corpo estirado no caixão e ver como se fosse uma caricatura da pessoa amada, passar a mão no seu rosto e não receber o carinho de volta, faz o mundo girar e o cansaço de viver toma conta. É como se tudo o que faltasse fosse uma cama para deitar e dormir pra sempre.
Mas o dia amanhece e o peito continua a doer, e dói mais ainda a falta que a pessoa faz. Ficar vendo as coisinhas dela se torna uma compulsão, reler mensagens de celular, cartões recebidos, beijar fotografias, lembrar das coisas que a pessoa falava. Dá uma tristeza e arrependimento por não ter feito mais pela pessoa, por não ter demonstrado mais que a amava, por ter deixado o orgulho imperar em alguns momentos.
Ai começa entrar a religiosidade, o enlutado procura em todas as religiões disponíveis tentar entender o porquê da morte de alguém tão amado, tão querido, e o ditado “ele não merecia” se torna rotineiro. Vai-se pro budismo, espiritismo, igreja evangélica, candomblé, pesquisa-se sobre tudo, mas nada apresenta uma resposta plausível, apenas teorias sem um nexo fundamentado que saciaria as perguntas.
O mundo deixa de ter sentido então, mais nada importa, nada mais tem valor, nada tem graça e o choro vem com qualquer lembrança da pessoa amada. Não dá vontade de comer, de sorrir, de levantar da cama, de tomar banho, muito menos de viver.
Algumas pessoas se matam depois que um amor falece, outras só não cometem suicídio por pensarem nas outras pessoas que ama e que também a amam, seria muito egoísmo fazer os outros passarem por essa dor infernal. Aí o diazepam se torna o maior aliado. Um dia anestesiado e uma vida morta seguem em frente em meio à multidão, até o sofrimento amenizar, ou até, como todos dizem “a dor passar”. Mas, será que passa mesmo? Segundo o Budista Eduardo Gerhardt “o tempo não cura nada, ele apenas tira os incuráveis do centro das atenções”.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070
Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 28-04-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

Nenhum comentário:

Postar um comentário