sábado, 8 de dezembro de 2012

FALA ERRADA: DISTÚRBIO OU APRENDIZADO?


A fala, assim como tudo na vida, é uma aprendizagem, já que ninguém nasce sabendo falar. Somos apresentados à linguagem nos primeiros momentos de vida e, com o tempo, a desenvolvemos. Os pais, ou quem desempenhe esta função, é que darão subsídios para que a forma mais comum de comunicação se desenvolva.
Tudo é um processo. A princípio, a criança começa a analisar como os adultos falam, logo, tenta imitá-los produzindo balbucio, em seguida, vai aprimorando estes sons até que ele seja emitido de maneira correta, e então se chega à conquista de construir significado pelos sons labiais. Como todo processo, só é concluído ao fim das etapas, se estagnar em uma delas não aprendeu a falar realmente.
Não é raro encontrar pais vangloriando a fala incorreta de seus filhos, imitando e sorrindo. Talvez por acharem engraçados os sons produzidos, acabam por incentivar a fala errada. Para alguns pais, a criança não precisa nem pronunciar parte da palavra, apenas fazendo um som eles já entendem e atendem ao pedido, sem o menor estímulo para que a criança se esforce em falar. Porém, depois que ela apresenta um atraso em relação às outras crianças, afirmam não saber o por quê. Mais eis o motivo: enquanto não for incentivada, a criança não vai aprender.
É claro que as primeiras palavras ditas não serão de total acordo com a linguagem correta, isto se dá gradativamente, como ocorre quando nós, adultos, estamos aprendendo uma nova língua (inglês, italiano, alemão...). No início, a palavra que falamos pouco tem a ver com a verdadeira pronúncia, mas com o tempo, empenho e ajuda de um professor, vamos aprendendo como realmente se diz as palavras. Caso não tivesse alguém que nos instruísse a falar correto, falaríamos errado pensando ser correto. E é exatamente isso que ocorre com as crianças.
As cores “amalelo”, “veide” e “malom”, não existem. Então pra quê estimular as crianças a falá-las?! Agindo desta maneira os pais estão prejudicando seus filhos, impedindo eles de se desenvolverem de maneira adequada.
A criança necessita de pais responsáveis no sentido de ensiná-las a se expressar corretamente, porém isto deve se dar de maneira cautelosa, branda, terna, porque o aprendizado está estritamente relacionado à afetividade.
Com cerca de um ano de idade, um ano e meio, a criança já consegue se comunicar verbalmente. É claro que de maneira bem simples. No entanto, é possível um diálogo com ela. Estima-se que até dois anos de idade se saiba cerca de 200 palavras. A idade considerada “ideal” para uma criança conseguir uma boa fluência verbal é entre três e quatro anos. Ou seja, com quatro anos de idade a criança deve se comunicar verbalmente com facilidade.
Se a criança já passou dos quatro anos e não fala fluentemente, deve-se dar atenção ao caso. Sintomas como: não perceber seus erros de fala, apresentar gagueira persistente, falar frases confusas com palavras invertidas e no lugar da letra “r” fala o “l” (em vez de passarinho, fala “passalinho”, carro é substituído por “calo” e, agora por “agola”) são indícios de que há alguma coisa errada. Aí, deve-se procurar um profissional para averiguar as causas, pois há indícios de que a dificuldade de linguagem esteja associada a algum déficit cognitivo ou transtorno de linguagem.
No entanto, existe também a possibilidade de a criança passar dos quatro anos sem falar corretamente, não por distúrbios de aprendizagem, mas simplesmente pelo fato de ser ensinada pelos pais a assim se portar. Uma vez que fala errado e percebe que recebe estímulos para que assim continue, as palavras disformes vão ser instaladas no vocabulário e prejudicará o desenvolvimento. Como diriam os comportamentalistas, os comportamentos reforçados tendem a se manter.
Ser bons pais consiste em dar subsídios para que a criança se desenvolva de maneira adequada e saudável. Devemos, sim, falar com carinho com crianças, mas isso não significa tratá-las como se tivessem deficiências mentais. Os erros devem ser sinalizados e corrigidos, para que o certo seja aprendido e, é claro, sempre de uma maneira afetuosa.
Psicóloga Katree Zuanazzi
CRP 08/17070

Publicado no Jornal de Notícias "A Folha de Saltinho" dia 17-11-2012
Pode ser reproduzido citando a fonte e a autora. (Lei 9.610/1998)

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