segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

DESVENDANDO A FANTASIA DA INOCÊNCIA INFANTIL


Os pais sentem uma necessidade imensa de acreditar que suas crianças são “anjinhos” inocentes que nada sabem, e caso façam alguma coisa importuna é devido a esta pureza plena. A psicanálise descobriu que as crianças são extremamente perversas, e essa questão de querer enxergá-las como “sem maldade” é uma fantasia adulta, ou seja, uma necessidade dos pais que não suportam a realidade de que suas crianças têm muita consciência do que se passa a seu redor. Quando se fala isso geralmente as pessoas se assustam, principalmente as que têm filhos pequenos, mas não há do que se escandalizar porque é algo de todas as crianças, é uma etapa do desenvolvimento natural como qualquer outra.
A criança puxa o cabelo da amiguinha, dá um bofete na mãe, morde o irmãozinho, ou faz qualquer coisa de gênero e vem um adulto e diz: “ela não sabe o que está fazendo”. Sabe sim!  Calma, isso não significa que ela é um monstrinho, longe disso. É simplesmente a forma que ela encontrou no momento de expressar alguma insatisfação, devido ao pequeno repertório que tem. Poderia estar sentindo raiva, ciúmes, algo desagradável e não sabia uma forma mais pertinente de manifestar isso. Cabe aos responsáveis ensinar-lhes que estas atitudes não são aceitáveis e lhes propor maneiras mais adequadas de lidar com as frustrações.
Nenhum ser humano se constitui sem a presença do outro. Assim, somos o que somos a partir do contato com nosso semelhante. As crianças são lançadas ao mundo com nenhum registro acerca de quem e o que são, e vão se constituindo enquanto sujeito conforme o meio lhe proporciona condições para tanto. As primeiras relações objetais é que irão nortear a maneira de se relacionar ao longo da vida.
Você deve estar se perguntando por que eu disse que as crianças são perversas, então vou explicar. Quando a criança nasce existe o que Sigmund Freud chama de “princípio do prazer”, se busca apenas a obtenção do prazer imediato e repele tudo que for desagradável, é uma época extremamente narcisista em que o outro é entendido apenas como um objeto para satisfação própria. No decorrer do desenvolvimento este princípio dá espaço ao “princípio da realidade”, onde a pessoa começa a discriminar o que é sentido e lidar melhor com suas possibilidades de agir no mundo que está inserida, e as fantasias megalomaníacas são acentuadas (pelo menos deveriam ser). Assim, a criança é bastante intolerante com o desprazer, mas vai aprendendo a lidar com isso conforme o meio lhe ensinar.
O que se percebe na atualidade é um grande índice de crianças que não vivem de acordo com o principio da realidade, mas permanecem no princípio do prazer. É claro que foram autorizadas para tanto. A falta de limites, o mimo, a decadência da educação tem se mostrado um fenômeno de massa, tudo isso mascarado pela ficção da dita “inocência infantil”, que não passa de uma estória.
Toda consciência tem intencionalidade, é de e para alguma coisa, todo ato visa algo a ser alcançado e ao se adotar uma determinada postura é porque se almeja algo com ela. Nesta época do desenvolvimento, que é a infância, é natural que a criança teste os limites e se perceba como centro do mundo, e é de responsabilidade exclusiva dos criadores explicitarem que não o são.

Katree Zuanazzi


Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 10-12-2011. Também disponível nos sites www.saltinhoweb.com e www.afsaltinho.com.br

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