domingo, 2 de dezembro de 2012

A INDÚSTRIA DA DOENÇA



É difícil compreender como as pessoas adoram quando seus atos cotidianos são enquadrados em uma patologia. Parece que elas se sentem aliviadas por estarem acometidas por doença, principalmente de origem mental, porque é como as livrasse, isentasse, eximisse da responsabilidade diante dos comportamentos.
O sujeito da pós-modernidade encontra-se fragmentado, dividido, perdido diante da imensidão de propostas que o mundo lhe propicia. Diante disso, a angústia existencial se torna inevitável, e as formas de lidar com esta angústia, escassas. As pessoas encontram-se perdidas em meio às próprias desilusões e a forma mais fácil de lidar com isso é acreditar estar acometido por uma patologia.
Este movimento é muito incentivado pela Medicina que a cada tempo “lança” novas patologias para enquadrar as pessoas. O DSM IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) e o CID 10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) estão passados já. Está sendo reformulado e logo será publicado o novo CID e DSM, e segundo informações este ultimo conterá o triplo de patologia em relação atual. Ao que tudo indica, em poucos anos, toda a população se encaixará em uma (dita) doença.
Quem muito se satisfaz com este fenômeno de massa são os laboratórios de farmacologia, que muito prosperam com essa crise crônica global. Assim que é lançada uma nova patologia concomitante deve emergir um novo medicamento pra tratá-la
Se você é muito agitado, é patológico, bem como se for muito parado, é patológico também. Ser gordo é doença, assim como ser magro demais. Se você faz certas coisas, se encaixa numa patologia, se não faz, se encaixa também. Nunca a questão de saúde foi tão banalizada como na contemporaneidade.
Às vezes uma patologia é tão semelhante à outra também existente, mas não, fazem questão de distingui-la por um mínimo detalhe, fazendo questão de elaborarem um fármaco exclusivo para ela. Há casos em que as propriedades farmacológicas quase nada mudam, mas um nominho diferente tem que surgir. Dá até a ligeira impressão de os compêndios de saúde são financiados pelos laboratórios bioquímicos, e que a construção de doenças é uma “jogada”, que há uma indústria da doença que permeia a vida contemporânea.

Partindo deste pressuposto de que a criação de novas patologias é uma jogada, quem é o brinquedo e quem é o jogador nesta partida será? É duro assumir querido leitor, mas você, bem como eu, somos meros financiadores da fortuna alheia. Somos educados a crer cegamente em tudo o que a suposta sabedoria cientifica revela, que de pouco em pouco tempo é desconsiderado pela mesma. Vemos verdades serem construídas e desmentidas, somos enganados, mas continuamos na fezinha, muitas vezes por não termos propriedades suficientes sobre o assunto, de que a ciência tudo resolve. Mas quem faz a ciência afinal, não são meros homens falhos e ambiciosos querendo ser deus?

Não há como negar que muitos destes pseudo-deuses muito contribuíram para a evolução da humanidade e para a tecnologia de que despendemos hoje. Assim como também não tem como fechar os olhos para o fato de que alguns destes utilizam sua colocação social para obter vantagens pessoais. Enquanto uns preocupam-se em criar curas, outros criam doenças. O trágico é que poucos percebem esta contradição.

Katree zuanazzi


Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 19-11-2011. 

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