sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PODE SER PLACEBO, O IMPORTANTE É SER MEDICADO


Geralmente as pessoas procuram um hospital com o intuito de consultar, mas não apenas isso, elas vão à busca da extraordinária, poderosa, estupenda “receita médica”. E não digo apenas os hipocondríacos. Em geral, tem muita gente que adora uma pílula básica para enfeitar seu dia. Quem vai consultar sem esperar, ao menos, uma receitinha que atire o primeiro remédio!
Uma viúva sente-se triste, desatinada pela adversidade que a vida lhe impôs, vai ao psiquiatra, que em uma consulta de 20 minutos lhe receita Fluoxetina, afirmando que este medicamento vai “fazê-la mais feliz”; Um garoto vai a uma consulta semelhante a esta, queixando-se de sofrer muito por sentir ciúmes da namorada, sai receitado de Risperidona, pelo Psiquiatra que lhe afirma ser um remedinho “para tirar teu ciúme”.  Estes exemplos são casos reais, e muitos outros semelhantes a estes acontecem rotineiramente.
Quero salientar que não esta sendo posto em questão o Médico, mas sim a pessoa. Um Psiquiatra tem conhecimento (ou ao menos deve ter) para dizer que fármaco usar, em qual dosagem e os mais diversos efeitos que eles promoverão. Nestes dois casos específicos, tais profissionais apenas não foram felizes na sua colocação medíocre a respeito da atuação destes fármacos. Será que o prometido irá efetivamente ocorrer? Será que uma pílula tem poder de assegurar a felicidade, ou de deixar uma pessoa realmente segura e confiante?
É sabido que, assim como todo psicofármaco, tenha surtido lá seus possíveis efeitos, mas o dito, tem que se convir, foi um tanto fantasioso. É incerto dizer que resolveu o problema dessas duas pessoas, tendo em vista que não é uma questão fisiológica apenas, mas envolve ocorrências angustiantes na vida.  Em vez de a viúva conseguir ajuda para elaborar o luto que vive pela perda do marido, simplesmente opta pelas pílulas da suposta felicidade, ou seja, não sente tanta dor, mas o luto continua ali. No caso do menino, as inquietações dele não foram solucionadas, apenas caladas momentaneamente.
Em muitos debates acerca do tema já foi atribuído a responsabilidade aos Médicos que tanto são mantenedores desta cultura de tomar remédio para tudo, até questionado sobre os ganhos que estes teriam com isso. No entanto, isso passou a ser encarado por um novo viés: as pessoas gostam de sair de uma consulta portando receitas. Isto mesmo, as pessoas querem, desejam, almejam ser medicadas, mesmo que não haja necessidade para tal. Tem também os adeptos da profilaxia, que vivem tomando remédio porque pensam que assim evitarão futuras doenças.
Quer ver uma pessoa chateada, é quando ela sai de uma consulta em que o Médico diz que ela não tem patologia nenhuma, que é tudo de origem psicológica, depois de uma exaustiva bateria de exames. Algumas procuram outros profissionais, até que um abençoado lhe receite algo para deixá-la satisfeita.
Talvez isto seja causa da cultura, da civilização, da evolução, da tecnologia e mais lá o que for que incita as pessoas a buscarem soluções rápidas, velozes, instantâneas para todos os âmbitos de suas vidas, inclusive no quesito saúde. Pra quê trabalhar uma questão pessoal, se esta mesma questão pode ser anulada de uma forma tão ligeira? Bendito seja quem inventou o placebo!
Katree Zuanazzi

Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 22-10-2011. 

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