sexta-feira, 30 de novembro de 2012

EXIBICIONISMO: NOS BASTIDORES DA CULTUAÇÃO AO EU


Após o surgimento da Psicanálise ficou evidente que o ser humano é extremamente narcísico. Sigmund Freud em 1914 fez uma introdução ao estudo do narcisismo, dizendo que este movimento de autoerotismo eclode nos primeiros momentos de vida, concentrando toda a energia libidinal no ego e isto servia como uma proteção que sustenta as fantasias megalomaníacas infantis.  No decorrer do desenvolvimento a pessoa começa a se dar conta da existência do outro, que é exterior a ela, e com isto desloca a energia de si mesmo para o externo, que passa a ser seu objeto de desejo e satisfação. Percebe que não adquire prazer apenas consigo mesmo, mas também com algo que não lhe é pertencente.
Isto posto, percebe-se na contemporaneidade o narcisismo manifesto no mostrar-se, isto tem ocorrido como um fenômeno de massa. As pessoas estão investindo demasiada carga libidinal no seu eu, estão ensimesmadas, abstraídas. Nunca ouve tanta exposição do eu como agora e, nunca houve tantos meios para a exibição. O exibicionismo está se tornando a principal forma de obtenção de prazer.
A internet tem propiciado um terreno fértil para o exibicionismo, é epidêmico o número de redes sociais que tem rebentado na atualidade. A criação de imagens (duvidosas) acerca de quem são aparenta significar muita satisfação. Mas o que revelam diz respeito acerca de quem são realmente, ou criam uma fantasia como na primeira fase do desenvolvimento?
Vive-se uma ilusão social, algo que não corresponde com a realidade, ou melhor, uma mentira. As pessoas se pintam da maneira como julgam necessário. Constroem-se e isto provoca certa confusão acerca de quem se é. Pode-se dizer que é um mecanismo infantil, uma fixação no primeiro período da infância. Fica a dúvida entre ser um fenômeno patológico ou social, porque apesar de representar uma forma de obtenção de prazer (o que é natural no ser humano) representa também uma fuga da realidade, mas que muito é incentivada socialmente. Homossexualidade também um dia foi considerada patologia e hoje não mais.
Vive-se uma ditadura da exibição mascarada pela espontaneidade. Todo mundo quer parecer feliz, popular, inteligente, satisfeito, saudável, independentemente disto que está sendo exposto ser verídico ou não. Há uma exposição de naturalidade de uma maneira extremamente artificial, a suposta segurança apresentada esconde a extrema insegurança por detrás do fenômeno imprimido.
Hoje não é mais a pessoa que escolhe ser quem ela é. Hoje é a cultura quem diz. Hoje as pessoas não mais recebem elogios, elas mesmas se elogiam. Quem tem interesse demasiado de expressar ser o máximo certamente está tentando esconder o fato de se sentir o mínimo.
Katree Zuanazzi

Artigo publicado no Jornal de Notícias impresso “A Folha de Saltinho” no dia 01-10-2011.

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