terça-feira, 27 de novembro de 2012

A DILAPIDAÇÃO DO SUJEITO NA ADOLESCENCIA


O adolescente nem sempre foi foco de interesse científico, isso porque é uma nomenclatura muito recente em termos de estudo, até algum tempo atrás a etapa hoje denominada adolescência era percebida com certo desdém. Falava-se em criança e em adulto e a evolução entre estas fases ficava esquecida, omitida, deixada de lado.
A palavra adolescente deriva do verbo latino “adolescere” que tem dois significados juntamente: amadurecer e adoecer. Amadurecer no sentido de crescer, desabrochar, que ocorre no corpo biológico. Adoecer porque alude a uma época de crise psicossocial que faz com que o sujeito experimente um período de adoecimento enquanto ser existente. Refletir sobre adolescência sempre vai significar abeirar ambivalências.
A adolescência se inicia com o processo de mudanças corporais, evidenciando a sexualidade enquanto sensações e promovendo contradições que muito afligem. Além de carregar um novo corpo, carrega-se um novo mundo e isto é extremamente angustiante para o adolescente, por isso ela cria uma realidade paralela, fantasia muito na tentativa de evitar o desprazer, de lidar com o insuportável.
O adolescente tem um prejuízo na questão de referencial, vivencia um paradoxo, ao mesmo tempo em que é grande demais para ser criança é pequeno demais para ser adulto. Há muitas perdas nesta fase, ele perde a menção de tudo que ele conhecia até então, é uma etapa de lutos constantes. Luto pela perda do corpo infantil, pela perda dos pais da infância, perda de como era tratado pelas pessoas, perda dos papéis que desempenhava e das atribuições que tinha. Ele tem que abrir mão de quem era e se reconstruir novamente. Remete ao pensamento de morte, morrer quem era e renascer um novo ser, sendo assim um processo de metamorfose.
O principal ponto desta etapa do existir é a separação da família. Se antes mantinha uma posição de dependência afetiva, social e econômica da família, agora tenta se desvincular. Começa a construir sua independência, escolher socialmente, participar de grupos sociais, a maior parte de suas atividades não é mais em companhia da família, ou seja, percebe que o seu querer é diferente do querer dos seus progenitores. Isto por vezes provoca insegurança e susto nos pais, mas é um movimento saudável e indispensável para elaboração da subjetividade do adolescente, isto rompe com a alienação da infância e possibilita que o sujeito se perceba e se construa.
São nítidas as instabilidades que eclodem na adolescência, por vezes, as peripécias do adolescente fazem com que ele seja incompreendido e estigmatizado, sendo descrito como uma pessoa intolerante e conflituosa. Tal comportamento revela um sujeito indefinido, que aspira encontrar seu lugar no mundo. Por mais que suas anarquias aparentam ser importunas, são extremamente necessárias para que o sujeito se estabeleça no seu espaço e se delineie enquanto sujeito. Foucault expressa bem o pensamento adolescente quando aborda a inconstância do existir: “Não me pergunte quem sou e não espere que eu continue o mesmo”.
Katree Zuanazzi

Artigo publicado no jornal de Notícias impresso “O Paraná” no dia 19-08-2011. Também disponível nos sites www.saltinhoweb.com e www.afsaltinho.com.br

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